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“Sabor da Rádio no Papel”

Diário de Notícias, 22 de Fevereiro de 2007

Secção Media

Por Ana Pago

 

 

Lançado ontem na Net pela Rádio Renascença, o “Página 1” assume-se como o primeiro jornal “online” do País concebido por uma emissora para adaptar ao papel os conteúdos radiofónicos. Duas edições diárias (às 12.30 e 17.30), formato pdf e critério tempo definem a essência da ideia.

 

            No início era o som, a voz – vocação original da Rádio Renascença. Depois veio o texto e o vídeo, a reforçar a informação no site. E esta percepção de que “temos de ser cada vez mais multimédia”, segundo palavras do director de informação da Renasçenca, Francisco Sarsfiedl Cabral, a emissora lançou ontem na Net o jornal Página 1, inédito no País por adaptar ao suporte papel os conteúdos produzidos para a rádio.

            “A ideia nasceu de uma reflexão interna da casa: sabendo qual a tendência noticiosa no estrangeiro, queríamos dar aos nossos ouvintes uma nova forma de ouvir/ler a mesma Renascença de sempre”, conta ao DN Pedro Leal, chefe de redacção da antena e o grande impulsionador do projecto. “Há que explorar todas as capacidades multimédia que o ciberjornalismo permite”.

            Sem esquecer que o objectivo principal é a rádio, o Página 1 está disponível em www.rr.pt, com as principais notícias da actualidade compiladas em duas edições diárias (às 12.30 e 17.30). O formato pdf permite ao utilizador descarregar facilmente os conteúdos em papel, dando outros contornos ao conceito de “portabilidade” do breaking news.

            “Ás horas de almoço e de saída dos empregos, a coincidir com ambas as edições do dia, qualquer pessoa pode imprimir o seu jornal para ler no caminho”, precisa Pedro Leal, satisfeito com o que considera ser um “passo pioneiro no sentido de casar o papel com a radiofonia”. A partir daqui, é só uma questão de acertar procedimentos e coordenar o Página 1 com o trabalho de redacção.

            “Acreditamos que o projecto é útil para os utilizadores e marca uma etapa única no panorama radiofónico português, por ser o primeiro do género”, sustenta Sarsfield Cabral, preparado desde já para a adaptação linguística e estrutural que se segue. Enquanto director – cargo que divide com a adjunta Graça Franco –, acredita na coesão da equipa e no trabalho de Pedro Leal, Raquel Abecasis, Ângela Silva ou Aura Miguel, a acumular funções na rádio e no novo jornal. “O caminho do futuro é cada vez mais este”, justifica. “Não inventámos nada”.

           

           

Corrida(s) contra o tempo

            Inspirado nos exemplos do Guardian (com o jornal G24) e do El País (24 Horas), o Página 1 insere-se na linha de projectos editoriais do grupo Renascença para este ano. A lógica, essa, é só uma: “As primeiras notícias a cair nas horas da edição são as primeiras a aparecer no jornal”, diz Pedro Leal, que aposta ainda nos exclusivos da rádio. O tempo e o imediato dominam, agora. Sinais de que o texto começa sempre por ser voz.

 

 

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Maria João Ganhitas

Rosa Brava

Rosa tem 16 anos acabados de fazer. Vive na Serra da Estrela, num dos Casais de Folgosinho, numa velha quinta arrendada pelo pai. O Casal da Maceira fica a 40 minutos, de jipe, de Folgosinho, uma pequena vila do concelho de Gouveia.

Rosa andou na escola de Folgosinho até aos 14 anos. Fez os 4 anos do primeiro ciclo em 8. Assim que completou a antiga quarta classe, os pais fizeram-na regressar ao vale da serra, transformando-a na principal, por ser a única, ajudante da família.

Os 8 anos de Rosa na escola foram, por isso, algo estratégicos. Tacitamente ter-se-á prolongado o tempo de permanência em nome da continuidade da ligação à escola.

Os pais, pela voz da mãe, há muito que definiram um princípio: “Se o mais velho (Raul de 32 anos) não quis continuar a estudar depois da quarta classe, os outros (Sandra, em parte incerta e com cerca de 20 anos, Rosa 16, Zé a completar 14 e a escassos 5 meses de deixar para sempre a escola) também não hão-de continuar”.

Definido o princípio, os filhos de Maria e de Manuel, puderam, portanto, completar o primeiro ciclo, por ser em Folgosinho, mas não tiveram ordem de passar para o segundo ciclo, em Gouveia.

Sandra conformou-se, encontrando outras formas de matar o tempo; Zé conformar-se-á, uma vez que o silêncio apático que lhe molda a personalidade não o irá deixar mover montanhas para perseguir um sonho; Rosa, menina do alto da serra, brava como as pedras, esforça-se por destruir o edifício de argumentos erguido pelos pais.

Há semanas fugiu do casal de bicicleta e passou uns dias em Folgosinho, numa casa que os pais construíram na terra a pensar na velhice.

Escassos dias antes dos 16 anos, apanhou boleia no táxi, que, diariamente, transporta o irmão para a escola de Folgosinho, e foi a Gouveia, falar com a presidente do Conselho Executivo da escola. Pediu-lhe para ser aceite.

A professora abriu-lhe as portas mas disse-lhe que só a poderia matricular se os pais acedessem. Falou com o pai, habitualmente mais aberto do que a mãe. Ouviu um não. A única palavra que, sobre esse assunto, a mãe diariamente lhe despeja na cara.

Rosa passa os dias a pensar na escola. Tem corpo e idade para pensar em rapazes. Aos estranhos só fala de rapazes.

A assistente social da Câmara Municipal de Gouveia, que fora uma vez ao Casal tentar convencer os pais a deixarem-na regressar à escola, voltou agora, curiosamente na semana que a SIC passou nos vales da serra. Ouviu, outra vez, o não de Maria.

Rosa ouve música. Passa horas ao telemóvel buscando uma rede inexistente, escrevendo mensagens que nunca envia. Sonha com o príncipe encantado que a leve para lá das muralhas da serra.

Tanto sonha que desespera.

É pastora de cabras; pastora de ovelhas; guia uma junta de bois; colhe o feno, o centeio e as batatas. Está farta da serra, imune à beleza que a paisagem transpira. Há um ano arranjou um confidente. Chama-se “pantufa”. O único que, pela ausência de resposta, lhe alimenta a dúvida: “Será que, algum dia, conseguirei sair daqui?” Pantufa diz “ão”, o que é mais de metade de um não.
Pedro Coelho (SIC)

http://sic.sapo.pt/online/noticias/sic+tv/reportagem+sicvisao/20070130

 

 

Esta é uma reportagem que irá para o ar na SIC no próximo fim-de-semana. O texto que a dá a conhecer deixa já antever a qualidade do trabalho.

 

Ana Catarina André

Kanimambo, Moçambique

“Uma coisa é estar a beber uma cerveja numa esplanada na Praia do Tofo, em Inhambane, 525 quilómetros a norte de Maputo, desviar o olhar do enxame de coqueiros para o mar e ver, nitidamente, uma baleia-corcunda a passear-se à superfície. Bem diferente é avistar, numa só investida submarina, sete tubarões-baleia (o maior peixe do mundo – chega a atingir 15 metros de comprimento – e o Santo Graal dos mergulhadores) e, a espreguiçarem-se de barriga ao sol, no limiar da água, três dezenas de mantas, a mais imponente das raias.”

in Única 19/10/06

 Também esta peça jornalística é do ano passado. Mas esta paisagem aqui descrita continua no mesmo sítio. Este “mundo” por descobrir que é África só está à espera da sua oportunidade para se dar a ver em todo o seu esplendor… Pronto não estou a ser isenta, sou suspeita para falar… porque trago em mim “sôdade”. Kanimambo (dialecto changane) significa obrigado. Este título não podia ser mais apropriado porque esta é uma reportagem que conta a história de alguns jovens portugueses que foram à procura de uma nova vida, aceitaram o desafio desta vida diferente, que é aquela vivida em África, e, hoje, não se arrependem. Encontraram uma nova casa e um novo modo de ser e de estar na vida. E porque também é “pelo sonho que vamos” é bom ler histórias com final feliz de pessoas de carne e osso.

“Eslarecimento aos leitores”

“RTP recusou manter parceria com o PÚBLICO

Ao fim de mais de dez anos de parceria entre o PÚBLICO, a Universidade Católica, a RTP e a RDP para a realização de sondagens, a direcção de informação da RTP decidiu, unilateralmente, romper o acordo informal, mas de cavalheiros, que ligava estas diferentes instituições. Fê-lo de modo abrupto e num momento difícil de compreender, pois a ruptura foi comunicada ao PÚBLICO e à Universidade Católica já depois de termos realizado a primeira reunião de trabalho para planear o ano de 2007 e, em particular, os trabalhos relativos ao referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. Essa reunião decorreu, com toda a normalidade, a 23 de Novembro de 2006.
Contudo, sem que nada o fizesse prever, no dia 12 de Dezembro o director de informação da RTP, Luís Marinho, comunicou por e-mail ao director do PÚBLICO e informou a Universidade Católica que a televisão de serviço público não queria mais colaborar com este jornal. Motivos? Os expressos no primeiro parágrafo dessa missiva: “Nos últimos meses, depois das acusações proferidas por Eduardo Cintra Torres contra a Direcção de Informação da RTP, subscritas em parte por ti, verificou-se uma deterioração das relações entre o PÚBLICO e a RTP que não me parece facilmente reversível.”
Na verdade não ocorreu desde então, pelo menos da parte do PÚBLICO, qualquer deterioração das relações com a RTP. Mais: as acusações feitas por Eduardo Cintra Torres foram editadas neste jornal em Agosto de 2006 e, em Outubro, o PÚBLICO, a RTP e a RDP voltaram a juntar-se para trabalhar com a Universidade Católica numa sondagem. Depois disso não houve, da minha parte ou do jornal enquanto instituição, qualquer nova referência à RTP ou aos seus critérios editoriais ou empresariais. Pelo contrário: o PÚBLICO mantém, numa parceria que também envolve a Rádio Renascença, um programa de entrevistas na 2: que os serviços informativos da RTP por vezes citam, reproduzindo algumas passagens, e o PÚBLICO mantém com a RTP acordos empresariais benéficos para ambas as partes.
O único evento de relevo ocorrido entre a reunião de 23 de Novembro e a missiva de 12 de Dezembro foi a divulgação da deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, ERC, sobre o texto publicado em Agosto por Eduardo Cintra Torres. Quem quer que tenha na ocasião lido o PÚBLICO pode verificar que este jornal reagiu de forma indignada e dura, mas que os textos visaram os poderes da ERC e o conteúdo da deliberação no que a este jornal dizia respeito, nunca se referindo a Direcção de Informação da RTP. Terão sido as críticas do PÚBLICO à forma como a ERC entendeu condenar um seu colunista e o seu director que levaram à citada “deterioração das relações”? Se foram, caberá à direcção de informação da RTP explicar porquê.
Não se perca, contudo, o sentido do essencial. E o que neste caso importa é que existia, há mais de uma década, uma relação institucional estável entre o PÚBLICO, a RTP, a RDP e a Universidade Católica. Nesse período sempre representei o PÚBLICO nas reuniões de trabalho, onde fui conhecendo os membros ou representantes de sucessivas direcções de informação da RTP. Correndo o risco de falhar alguma alteração nas suas muitas mudanças de chefia, sucederam-se nestes dez anos à frente da RTP direcções personificadas por Joaquim Furtado, Fernanda Mestrinho, José Rodrigues dos Santos, Emídio Rangel, de novo José Rodrigues dos Santos e, por fim, Luís Marinho. Ocorreram também mudanças de governo e de ministros da tutela, mas nem elas impediram, ou estimularam, que o PÚBLICO editasse inúmeros textos, de opinião ou editoriais, fortemente críticos da RTP. Da mesma forma o PÚBLICO e eu próprio fomos muitas vezes criticados em programas da RTP, o que sempre foi entendido, nesta casa, como sendo normal e até saudável.
Tal como escrevi na missiva que enviei a Luís Marinho e da qual enviei cópias aos administradores da RTP e ao seu provedor, “a minha cultura democrática permite separar as instituições das pessoas, tal como me permite divergir das opções e dos comportamentos daqueles com quem trabalho sem que para isso tenha de engolir em seco, antes tornando claros os meus pontos de vista”. Mais: “A minha cultura de cidadania obriga-me, em contrapartida, a ser mais exigente e vigilante relativamente ao operador de televisão que é financiado por taxas e impostos pagas pelos cidadãos. Ao mesmo tempo que, sendo possível, porque acredito que todo o bom jornalismo é serviço público, tal como creio que o jornal que dirijo tem (…) feito muito pela qualidade da informação e pelo nível do debate público, acredito que a nossa colaboração com os operadores de capital público é um contributo positivo para a qualidade dos mesmos, logo, passe a imodéstia, outra forma de servirmos a comunidade. Verifico porém que esta forma de estar na vida e na profissão não é partilhada por todos.”
Porém, nem sequer os esforços dos responsáveis da Universidade Católica e do seu Centro de Sondagens para manter a parceria tiveram qualquer eco. Forças mais altas se terão levantado e a RTP preferiu deixar de trabalhar com o jornal que um estudo académico recente (Fernando Vasco Moreira Ribeiro, Faculdade de Letras da Universidade do Porto) mostrou ser aquele que, precisamente nestes últimos dez anos e apesar das mudanças de governo, sempre demonstrou maior independência e menor dependência de fontes governamentais ou oficiais. São escolhas que falam por quem as faz.
Face à situação criada, e não fazendo o PÚBLICO parte de qualquer grupo de comunicação social, regressámos, de alguma forma, às origens. Voltamos a trabalhar com a TVI, como já fizemos no passado e junto de quem encontrámos de novo, agora através do seu director-geral, José Eduardo Moniz, a maior receptividade para o estabelecimento de uma parceria que também engloba o renovado Rádio Clube. Deixamos de trabalhar com a Universidade Católica, por cujo rigor mantemos todo o apreço, e passamos a trabalhar com a Intercampus, uma empresa de créditos firmados no sector dos trabalhos de campo para recolha e tratamento da informação e com uma dimensão que lhe permite assegurar qualidade e fiabilidade, como têm comprovado as boas previsões que fez em anteriores eleições.”

José Manuel Fernandes, in Público, 12 de Janeiro de 2007

Vale MESMO a pena ler…TUDO!

Ana Maltez

“Contra a demagogia”

Numa altura em que muito se fala sobre a percentagem que os jogadores profissionais de futebol devem descontar para o IRS, surge uma coluna na Revista Dez, do Record, em que João Marcelino, director do Correio da Manhã, critica severamente a posição de Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores. Apesar do tom corrosivo ser, na minha opinião, excessivo, o jornalista acaba por abordar, de uma forma directa, o outro lado da profissão, isto é, sem a encarar como a galinha de ovos de ouro. A coluna é polémica e pode ser encarada como um contributo importante para a discussão sobre o tema.

 “Eu acho que os futebolistas devem descontar para o IRS a 100% e não aceito nenhum dos argumentos do Sindicato dos Jogadores, replicados pela corporação e por outros que por lá passaram, e que aliás considero absolutamente hipócritas sempre que não são apenas destituídos por inteligência.

Primeiro, a tese da profissão de desgaste rápido. Por favor, poupem-me! Profissão de desgaste rápido é a dos mineiros. Esses homens, sim, saem das entranhas da terra com doenças que os levam dali para a morte, precoce, ou para uma vida sem qualidade. Os futebolistas, aos 30 e poucos anos, apenas deixam de ser atletas de alta competição. Continuam a ser pessoas, felizmente com saúde, e estão em muito boa idade para entrarem no mercado de trabalho. Para isso, aliás, ficam até com acrescidas possibilidades de êxito, uma vez que não só podem continuar ligados à indústria noutras posições (treinador, secretário-técnico, dirigente, empresário etc.) como estabelecem contactos sociais importantes no sentido de virem a fazer carreira nos negócios ou mesmo arranjarem um emprego (que é sempre uma boa maneira, e digna, de ganhar a vida). Felizmente, há inúmeros bons exemplos que podem ser apontados neste sentido.

Depois, e porque nestas alturas, bondosamente, os chamados “craques” se lembram de invocar os seus irmãos desprotegidos como o Marco, eu cito palavras do presidente do Sindicato, Joaquim Evangelista. Diz ele: “Num universo de 32 clubes da Liga, e de centenas de clubes das divisões inferiores, apenas cinco por cento dos futebolistas ganham muito dinheiro. Outros, que deixam de estudar para tentarem ser como os Cristianos Ronaldos, têm carreiras de dez anos e, no final, não têm preparação para outras profissões”.

Ao contrário do que pretenderia Evangelista, este é o argumento que me faltava. Eu explico: os ricos (jogadores) podem e devem pagar – penso que estamos todos de acordo, até ele. Aliás, a lei 32-B/2002 já dispunha, desde 2003, o incremento anual de 10% sobre o rendimento colectável como transição do regime de pagamento de 60% do IRS para os 100% em 2007. (A questão, se virmos bem, é saber se os clubes e atletas têm estado, ou não, a cumprir esta lei…).

Os outros futebolistas, aqueles que são tentados por uma arte para a qual não têm manifestamente capacidade (muitas vezes empurrados pelo apoio ganancioso e criminoso dos pais, que os autorizam a faltar à escola e a descurar o futuro), só terão a agradecer a todas as leis rigorosas que lhes façam equacionar o perigo de apostarem numa única actividade, ainda por cima datada em termos biológicos. O futebol deve deixar de ser pasto para indolentes que se encostam ao jogo da bola e passam dez anos da vida sem se preocuparem com o seu futuro e o das respectivas famílias. Pode jogar-se futebol e, ao mesmo tempo, acautelar uma futura via profissional. Há muito tempo para isso entre os treinos e os jogos. A tese contrária é indefensável e socialmente inaceitável.

Se a aplicação de um quadro legal justo, por igual para todos, afastar da profissão alguns pernas de pau sem as mínimas condições para ganharem a vida a jogar futebol, óptimo. Se esta legislação servir para ajudar esses mesmos rapazes a pensarem duas vezes antes de se atirarem à bola e requalificar o papel das respectivas famílias, melhor ainda.

O futebol é uma actividade de risco apenas e só na medida em que o são todas as outras. Por que é que a lei haveria de discriminar positivamente os rapazes que optam por prolongar a juventude pelos relvados adentro e teria de esquecer os que gostam de fazer esqui, de jogar golfe ou bowling, de serem artistas de circo ou dedicarem-se à música? Alguém me explica?”

Joana Paixão Brás

Jornalismo participativo

www.jumento.blogspot.com

Encontrei este cartoon que satiriza o jornalismo particativo num blog onde se dá “uma no cravo, outra na ferradura”.cartoon-blogs.jpg

A depressão do Natal

“Há quem sinta tristeza na quadra festiva. Solução: ajustar a época à vontade própria

RUAS E ÁRVORES ILUMINADAS, montras recheadas de apelos ao consumo, centros comerciais apinhados e intensas trocas de telefonemas e correspondência. Estar com os outros e para os outros é um ritual quase obrigatório, que absorve os dias e a paciência de quem, como a personagem Scrooge, inventada por Charles Dickens, não lida bem com o espírito natalício. «Mal acaba o Verão, vêm-me logo à cabeça os planos da Consoada e a ditadura das prendas.» Soledade Magalhães, 34 anos, funcionária numa gráfica, já sente aquela angústia que se abate sobre ela como chuva miudinha, nesta fase de preparativos. Em casa, os filhos e o marido nem sempre compreendem as suas oscilações de humor, entre o rabugenta e o preocupada, até porque as finanças não estão para grandes aventuras. Este ano, Soledade quer ter um Natal bem diferente do pesadelo que viveu no ano passado, por esta altura. «Sentia-me muito cansada, saía do trabalho maldisposta, tive febre e fiquei com borbulhas pelo corpo todo. No dia 25 até fui ao hospital, mas as análises não acusaram nada.» A depressão de Natal, ou o estado melancólico que assola muitas mentes durante a quadra festiva, é comum. Acumula os dissabores de um ano que, no começo, se projectava promissor: perdas de familiares, crises existenciais (quebras psicológicas ou outras doenças, separações), problemas financeiros e expectativas frustradas. Nem sempre acompanhado de incómodos físicos, o estado de espírito cinzento traz condutas saudosistas – do tipo «quando eu era criança é que era bom». Ou formas de ser mais pessimistas e estranhas para os adeptos da noite de todas as festas.

PARA MARIA JOÃO MARTINS, 45 anos, o pior é a falta de tempo para celebrar o recolhimento familiar. «A vida de comerciante é isto – na véspera de Natal estou presa na loja até quase à noitinha e já vou em stresse para casa.» Divorciada e a viver sozinha por opção, admite que durante este período sente mais a ausência de um companheiro: «Fico um pouco nostálgica, sim.»

«A depressão de Natal é uma reacção a uma frustração», nota a psiquiatra Maria Antónia Frasquilho, 50 anos. No entender da médica, o problema instala-se quando se atribui um significado negativo à quadra, sem qualquer esforço para se adaptar a ela e daí tirar partido. O sofrimento a que muitos se agarram, condenando a febre consumista e a suposta hipocrisia reinante, não ajuda: «Dizer que o Natal é todos os dias também se revela uma ilusão e um pretexto para fugir ao convívio com os outros, que se encara como difícil.» Dar o seu próprio significado à época, reinventando a fórmula que melhor se ajusta a cada um, é a sugestão da clínica. Assim faz o consultor Manuel Dias, 53 anos. Desde a faculdade, desvaloriza a azáfama natalícia. Divorciado e com um filho maior de idade, ainda aderiu à tradição nos primeiros tempos de paternidade. Agora, cada ano é diferente: «Já me meti num avião e fui para um país quente. Já passei a Consoada sozinho, a ver um bom filme de aluguer. E já jantei com familiares.» Poucos presentes dá e recebe, mas não o olham como um Mister Scrooge. Antes irritava-se e deprimia-se – «até por causa do mau tempo». Hoje considera-se um homem pacificado com a «ilusão natalícia». Concluindo: o Natal é o que se faz dele.”

Clara Soares, in VISÃO, nº 718, semana de 7 a 13 de Dezembro de 2006