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«Grande Entrevista» a Jorge Sampaio

O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, foi o entrevistado de Judite de Sousa no programa «Grande Entrevista» de 4 de Janeiro.

É uma entrevista que, a meu entender, não acrescenta nada de novo, mas que permite fazer um balanço aos dez anos da presidência de Jorge Sampaio, nove meses após a sua saída de Belém. Sampaio fala do que mudou na sua vida privada, da relação que mantém com o actual Presidente da República e com o Primeiro-Ministro, do momento de transição que Portugal vive actualmente e de 2006 como um ano de revelações.

Como seria de esperar são abordadas as questões mais polémicas dos seus dez anos de mandato: a ida de Durão Barroso para a Presidência da Comissão Europeia; a nomeação de Pedro Santana Lopes para Primeiro-Ministro e a posterior dissolução do seu Governo; a maioria absoluta do PS; o Processo Casa Pia e a controvérsia em torno do antigo Procurador-geral da República, Souto Moura.

Nesta entrevista Sampaio coíbe-se de emitir opiniões sobre a forma como o país está a ser dirigido e, em resposta a Judite de Sousa, garante que não se voltará a candidatar à Presidência da República.

 

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Entrevista de José Mourinho ao EXPRESSO

“Sinto-me demasiado popular em Londres”

Pela primeira vez não vai à frente, mas não ficou mais humilde. “Não há dúvidas sobre a minha competência”. Terá a Inglaterra mudado alguma coisa em Mourinho ou foi só Mourinho que mudou a Inglaterra?

Foi ele que escolheu o campo. Em cima da hora, preferiu jogar em casa. Não a grande moradia fora da cidade que já mostrou aos portugueses nos ecrãs da SIC, mas a casa de Belgravia, bairro muito «posh» do coração de Londres, a pouca distância do rio Tamisa e do estádio do Chelsea. É num beco tranquilo que vive com Tami (Matilde) e os dois filhos, Tita (Matilde) e Zuca (José). Assim podem ir às compras e ao cinema a pé, ao contrário do que acontece em Cobham, onde preferem estar ao fim-de-semana. Dada a antecipação da entrevista (marcada para o dia seguinte), os jornalistas do Expresso acabaram por jantar na sala de José Mourinho. Carne estufada com cenoura e arroz, a que se seguiu um gelado de baunilha servido por uma simpática empregada brasileira. Na copa, o treinador do Chelsea assistia a uma transmissão da Sport TV em português. Depois, passou para o sofá.

Está em segundo lugar este ano, mas fala aos jornais como se fosse em primeiro. Não o assusta não ir à frente desta vez?
É uma experiência nova para mim. Nas outras duas épocas começámos à frente muito cedo. Já nas duas épocas anteriores, em Portugal, foi a mesma coisa. Eu sempre disse – e não mudo o discurso agora que sou o perseguidor – que é melhor ir à frente. Quem vai à frente só tem de pensar nele próprio. Quem vem atrás tem de ter alguma preocupação para que aquele que vá à frente tenha os seus percalços.

Como acha que vai reagir se perder o campeonato?
Anormalidade é eu ter ganho quatro campeonatos seguidos. Não é normal um clube fazê-lo, e muito menos um treinador. Se eu perder um campeonato, o quinto ou o sétimo, seja ele qual for, encaro-o com naturalidade. O que eu procuro fazer — para não me culpar a mim próprio quando isso acontecer — é tentar que os níveis de ambição não diminuam porque ganhei três ou quatro campeonatos. Gostava que acontecesse porque o adversário foi melhor, não porque não fui tão competente, tão determinado, tão líder como costumo ser. Mas estou tão convencido agora como estava há três ou quatro meses de que vamos ganhar o quinto campeonato.

O Chelsea tem mais adeptos hoje do que tinha há dois anos e meio, antes de ter chegado?
Tem.

(…)

Vê o futebol da mesma forma que via antes de vir para Londres?
Uma equipa campeã em Inglaterra não é campeã em Espanha, e o campeão em Espanha não o é em Inglaterra. São coisas completamente diferentes. Temos de ser flexíveis e nos adaptar às características do futebol onde estamos. E Inglaterra tem mudado. Houve grandes treinadores que chegaram, antes de mim, e eu também tenho alguma responsabilidade na mudança de qualidade do jogo. O futebol inglês deixou de ser tão directo e tradicional como era.

Mudou, portanto, depois da sua vinda.
Houve outros treinadores que já tinham tido uma influência positiva. Por exemplo, o Wenger. É óbvio que não somos os melhores amigos, mas respeito o trabalho que ele fez e tenho de reconhecer que é um grande treinador. Começou a fazer um bom trabalho mesmo antes de eu chegar.

(…)

Há dois anos disse em entrevista ao Expresso que se considerava a grande cabeça do futebol não só em Portugal como na Europa. Continua a achar-se o melhor dos treinadores?
São troféus. Ganhei os dois últimos anos mas estou convencido que este ano não voltarei a ganhar. Não é porque seja melhor ou pior do que era, mas o futebol é mesmo assim. Nos últimos anos não ganhei competições europeias. O troféu vai e vem. É como com os jogadores e a Bola de Ouro. Umas vezes vai para o Zidane, outras vezes vai para o Figo. Agora, é óbvio que estou num grupo de elite onde há seis, sete ou oito treinadores. Treinamos os melhores clubes, estamos nas melhores competições, conseguimos os melhores resultados, ano após ano.

Mas o que é o torna, a seu ver, o Special One?
Eu vim quase directamente do anonimato. Quando eu treinava o Leiria ou na minha primeira época no Porto, era praticamente um desconhecido. Passei do anonimato para esse grupo restrito de elite. O que é que nos leva para lá? Os títulos. O que é que nos mantém lá? Os títulos. Não há volta a dar: o futebol é ganhar. Special One? No futebol inglês isso faz sentido talvez pela ruptura com o tradicionalismo, por ser uma personalidade diferente, que arriscou muito na primeira época, na primeira abordagem. Nunca nenhum treinador tinha sido campeão ao chegar ao futebol inglês. Sempre foi considerado algo de muito especial, de difícil adaptação e domínio.

Não acha que tem arriscado demasiado às vezes? Houve aquela acusação ao treinador do Barcelona, Rijkaard, de que ele tinha ido ao balneário do árbitro…
Não arrisquei nada. Fiz aquilo que sempre faço, que é acreditar nos meus e naquilo que os meus me dizem de uma forma cega e objectiva. E se um adjunto me diz «foi assim, eu vi», não é nenhum Rijkaard deste mundo que me vai dizer o contrário. Simplesmente pus-me ao lado de um colaborador, como me porei sempre, sem olhar às consequências. Não é o exemplo perfeito.

Esse episódio abalou a sua imagem.
Um dos meus problemas é exactamente não me preocupar com a minha imagem. É uma das minhas características, que faz com que eu seja mais amado por uns e mais odiado por outros. É mais importante a minha equipa e os objectivos que perseguimos. São princípios dos quais não abdico.

Não se arrepende?
Não me arrependo. Exactamente porque o princípio é inerente à minha personalidade.

E nunca pediu desculpa?
Pedir desculpa por uma convicção ou uma característica de personalidade, não sou capaz de o fazer. Sempre considerei que houve uma desigualdade brutal (no caso Rijkaard) na forma como as coisas foram analisadas e conduzidas. Uns foram de imediato considerados os donos da verdade e os outros foram considerados os donos da mentira. E quando as coisas vão por esse caminho, não vale a pena haver mais discussão. É um episódio que faz parte do passado. Uma das vantagens de ter atingido um determinado estatuto é que podemos chegar a um momento e dizer: pensem o que pensarem de mim, a minha qualidade é evidente. Não há dúvidas sobre a minha competência. Estou-me nas tintas para o que pensam e para o que dizem.

(…)

Tornou-se amigo de Roman Abramovich ou mantêm uma relação meramente de patrão-funcionário?
A dimensão da palavra “amigo” é complexa. O que posso dizer é que gosto dele. Tenho uma relação que ultrapassa a ligação patrão/treinador. É uma relação aberta, frontal, muito objectiva e pragmática. Ele sabe o que é que eu quero, eu sei o que é que ele quer. Os meus problemas são os problemas dele, os meus objectivos são os objectivos dele.

Ele segue de perto a vida do clube?
Tem a sua vida, mas raramente perde um jogo. Quando as suas semanas permitem que esteja em Londres, também vai ao centro de estágio. Mas, ao contratar-me e ao contratar o Peter Kenyon e outros profissionais importantes, é exactamente com o objectivo de ter os melhores e delegar funções e responsabilidades e de não se preocupar muito.

(…)
O que é que o distingue do Pinto da Costa?
São completamente diferentes. A vida profissional do senhor Pinto da Costa, pelo menos no meu tempo, era o Futebol Clube do Porto. Vivia 24 horas para o clube. O Abramovich é uma pessoa com uma vida para além do futebol.

Prefere alguém como Abramovich, que mantém uma maior distância?
Nós temos é de nos adaptar em função daquilo que é a liderança do clube. Com o tipo de relacionamento que há com um presidente do dia-a-dia, não há necessidade de reuniões periódicas, organizadas, documentadas. Senti-me bem no Porto e sinto-me bem como funciono agora.

Costuma ler o que escrevem sobre si?
Não.

Ninguém lhe faz um resumo?
Há um assessor de imprensa no clube que está comigo todos os dias e que me faz um briefing. Não é um assessor pessoal que vem dizer: «Escreveram este artigo sobre ti». O que me preocupa são as notícias em redor da minha equipa, para eu poder liderar melhor.

(…)

Os fins justificam sempre os meios?
Não. Em absoluto. A maior prova disso é que na minha vida há prioridades. E as minhas prioridades não são o futebol. Há uma coisa que me irrita terminantemente: a calúnia. Por exemplo, em Portugal eu ia a Fátima muitas vezes. E comentava-se: lá vai ele a Fátima porque é antes de um grande jogo.

Isso é uma calúnia?
Então não é? Eu vou a Fátima pedir para ganhar um jogo? Eu ia e vou a Fátima porque gosto.

Fátima não merece essa desconsideração, é isso?
Para mim a única coisa que me preocupa no mundo, de facto, são os meus. Quero lá saber do futebol para alguma coisa. Agora eu ia a Fátima pedir para ganhar um jogo?… A minha vida não é o futebol.

Mas é católico.
Sou católico e sou crente.

Nunca pediu a Deus para ganhar um jogo?
Já pedi. Mas a minha prioridade de vida não é o futebol.

Mas dentro do futebol e voltando aos fins que justificam os meios: prefere perder um jogo justamente e ser correcto ou ganhar mesmo que tenha de torcer um pouco as coisas?
Sou um adepto da correcção. O que eu não gosto é de perder pela incorrecção. E também não gosto de ganhar por incorrecção. Se me disser: vais ganhar no último minuto com um golo marcado com a mão, eu não quero. Mas também não quero perder assim. Os fins não justificam os meios. Agora, enquanto líder de um grupo, vou dar-lhe um exemplo concreto: quando faço as minhas escolhas, faço-o a pensar na melhor maneira de atingir um resultado. Magoa-me, no final de uma época, dizer a um jogador «não te quero cá, vais-te embora». Mas tenho de o fazer. Pagam-me para isso.

E transmite essa emoção aos jogadores?
Depende do jogador.

Adapta-se aos temperamentos?
Sim, adapto-me. Sou totalmente contra o velho chavão do futebol de que todos devem ser tratados da mesma maneira. Não devem. Cada um deve ser tratado de uma maneira muito específica.

(…)

Neste momento é adversário directíssimo de Carlos Queiroz. Dão-se bem?
Damo-nos bem mas só falamos quando jogamos um contra o outro. Antes e depois do jogo, encontramo-nos.

(…)

Tem a sua equipa de sonho?
A equipa de sonho não existe. Há jogadores que jogam noutras equipas e que são intocáveis. Os grandes clubes não vendem os seus melhores jogadores. Mas tenho um plantel muito bom, com pequeninas lacunas, como todos têm. O grande segredo é fazer com que o todo seja melhor do que a soma das partes. Aí é quando a equipa está concluída.

Está contente com Hilário?
É uma situação muito específica: ser suplente do melhor guarda-redes do mundo. Se tudo corre bem e não há lesões, os guarda-redes suplentes são capazes de passar uma época inteira sem jogar. O que aconteceu com o nosso abriu as portas ao Hilário e eu não podia estar mais contente. Ele tem contrato por mais um ano e meio e penso que a tendência natural das coisas é renová-lo por mais tempo ainda.
Sente-se muito popular?
Sinto-me demasiado popular em Londres.

O jornal A Bola avaliou o número de vezes que tem saído na imprensa inglesa e concluiu que está tecnicamente empatado com Tony Blair. Tem ideia dessa dimensão?
Tenho ideia de que o que mais queria para a minha vida, quando eu saísse do meu trabalho e chegasse à rua, era ser uma pessoa igual às outras – e não sou.

(…)

Já conhece bem Londres?
Conheço. Moro no centro da cidade.

Faz vida de bairro?
Faço. A escola dos miúdos é aqui perto.

Consegue ir às compras?
Sim, sendo incomodado… É evidente que tentamos ter o nosso espaço. Temos um local fora de Londres onde vamos de fim-de-semana e onde estamos mais tranquilos. Mas não posso abdicar de ir ao cinema ou de ir buscar os meus filhos à escola e de vir a brincar com eles na rua, de trotinete ou de «skate».

Vai buscá-los a pé?
Quando o tempo o permite, vou.

E jantares românticos com a mulher?
Consigo tê-los, mas sou capaz de estar com o garfo na boca ou a meio de uma conversa importante que queremos ter a dois e de repente não é a dois — é a três. Alguém interrompe e pede para tirar uma fotografia, para o filho ou para o neto. A minha mulher, como educadora dos nossos filhos, tem um trabalho árduo, que é prepará-los para a vida que têm. A culpa é minha — devido à dimensão que eu atingi na minha profissão — mas é a vida que temos.

Os seus filhos estão a gostar do ambiente e da escola?
Eles gostam de Londres.

Já têm muitos amigos ingleses?
Sim. E já falam fluentemente inglês. Ela, além de falar, escreve. É completamente bilingue. Tem dez anos e está no quinto ano. Ele está na primeira classe.

A sua mulher deve estar feliz por lhes poder proporcionar uma educação melhor do que aquela poderiam ter em Portugal.
Não digo que a formação seja melhor. A minha mulher era uma apaixonada pelo plano de vida que nós tínhamos no Porto. Ela adorou viver lá. E os miúdos também. A escola onde eles andavam, o colégio Luso-inglês, era absolutamente fantástica. Serviu-lhes como uma base muito importante para virem para cá. A adaptação foi fácil, arranjar amigos também. Eles sentem-se bem. Estão felizes.

No início, quando veio para Londres, a sua vida social circulava muito à volta dos seus técnicos adjuntos portugueses.
Com os meus adjuntos estou cada vez menos. Eles moram todos praticamente juntos, longe de mim. Já têm as suas famílias. Estão muito mais independentes e perfeitamente adaptados. Estou contente com isso. Nós continuamos, obviamente, a ter a mesma boa relação que tínhamos com eles, mas vivemos cá do outro lado da cidade e os miúdos fazem amigos na escola e isso é muito importante. Amanhã à tarde tenho um jogo marcado — quatro contra quatro.

Que jogo é esse?
Eu fico numa baliza, o segurança dos meus filhos noutra baliza, e jogam o meu filho e mais cinco amigos que vêm da escola de propósito. Sexta-feira à tarde é o dia de jogarmos.

E jogam onde?
Aqui na rua.

Acha necessário os seus filhos andarem com segurança privada?
Achamos que sim. Fomos aconselhados a isso não só cá como também em Portugal. Não gostamos que seja uma coisa muito visível e palpável, mas dá-nos tranquilidade.

E eles sentem-se confortáveis?
Sim, porque não é uma coisa muito presente. Sabemos o que está a ser feito, mas não com muita proximidade.

(…)

Tem vizinhos famosos. Dá-se com eles?
Não me dou muito.

Eles não se metem consigo?
Não. Para mim há duas classes de famosos: os que são porque têm mérito e os que pagam para ser. Normalmente, os que têm mérito são uns gajos muito simples, com quem se pode jantar e conversar. Não têm vaidade absolutamente nenhuma. Estive várias vezes com o Brian Adams, que é uma superestrela, e parece que estava a jantar com um tipo qualquer. Encontro-me com o Robin Williams e com o pai dele no hotel em que fazemos estágios e estamos ali a conversar como se ele fosse um tipo absolutamente normal. Se transportarmos isso para o lado português acaba por ser a mesma coisa. No outro dia eu e a minha mulher estivemos a jantar com a Mariza, o Rui Veloso, o Carlos do Carmo, o João Gil. Não os conhecia, foi a primeira vez que estive com eles.

Convidaram-no para jantar?
Sim. São uns tipos porreiros e simpáticos. Ao fim de meia hora, dá para sentir uma empatia grande. Mas a vida, normalmente, afasta-me um bocado disso. 

E não o desafiam para ir à televisão inglesa?
Não vou. Têm-me convidado, mas não vou.

Nem a debates vai?
Não quero ir. Nunca fui.

Os outros treinadores não vão?
Alguns vão, mas eu não quero. Aquilo que faço, faço porque tenho de fazer. Vou às conferências de imprensa com o Chelsea porque tenho de ir. Vou às acções de promoção de «sponsors» porque é obrigatório, faz parte da minha contribuição para com o clube. E sou patrono de uma associação de caridade aqui em Londres e vou a coisas que sinto o dever de ir. Eu e a mulher somos parecidos – se calhar por isso é que somos casados. A minha mulher é uma mulher de classe.

(…)

Tem saudades de viver em Portugal?
Não.

Gostou de ver a selecção no Mundial?
Diverti-me. Acho que chegar à meia-final de um Mundial é sempre um feito.

Scolari surpreendeu-o?
Não.

Acha que teria feito melhor no lugar dele?
Teria feito diferente. Cada treinador, cada cabeça. Se perguntar a todos os outros treinadores portugueses, vão dizer-lhe o mesmo.

Scolari teria dado um bom seleccionador de Inglaterra?
Na minha opinião, o futebol inglês merece um seleccionador inglês. Da mesma forma que o futebol português merece um seleccionador português. Acho que a selecção é representativa de um país e que deve ser feita com cidadãos desse país. O que não significa que não respeite profissionais e que eu próprio não vá ser um seleccionador estrangeiro.

Ainda tem quatro anos de contrato pela frente. Falou abertamente que gostava de vir a ser seleccionador nacional. É um projecto para essa altura?
Para mais tarde. Se me perguntasse qual é que seria o meu final perfeito enquanto treinador, era treinar a selecção portuguesa num Europeu e num Mundial.

(…)

Qual é, neste momento, o melhor treinador em Portugal?
Não sei. Acho que é uma injustiça estar a dizer nomes.

O Porto teve grandes mexidas depois da sua saída. O que acha do trabalho de Jesualdo Ferreira?
Se contarmos com o Rui Barros, Jesualdo é o sexto treinador desde que eu saí. O Porto parece ter encontrado agora um rumo. Para já, foi campeão no ano passado e o treinador fez um bom trabalho. A equipa tinha características muito específicas e aquilo que mais prazer deve dar a um treinador é dizer: «Eu ganhei com a minha marca, com a minha filosofia». O Co Adriaanse fez um excelente trabalho. Este Porto do Jesualdo Ferreira é diferente. Ele está a tentar incutir as suas ideias e parece-me uma equipa boa, com bons jogadores, bem trabalhada, com competência suficiente para voltar a ser campeão. E para fazer coisas boas nas competições europeias.

Tem acompanhado o processo do Apito Dourado?
Não consigo acompanhar um processo que dura 100 anos.

Há um fundo de verdade no Apito Dourado?
Eu acho que a história dos árbitros é uma história interminável e só a tecnologia poderá melhorar as coisas. Não entendo como numa indústria tão forte como é o futebol, a tecnologia na arbitragem não existe. Ela reduz os erros e ao reduzir os erros, reduz a crítica e a suspeição. E reduz a responsabilidade dos árbitros. Uma coisa é um fiscal de linha decidir um jogo por um fora de jogo mal assinalado, outra coisa é a tecnologia substituir o fiscal de linha numa decisão crucial. A tecnologia no futebol é o fim de todos os Apitos Dourados que possam existir.

(…)

É um homem rico.
O que é isso?

Não se considera rico?
Ganho muito dinheiro. Mais do que pensei que podia ganhar. Não tenho problemas financeiros, vivo como vivia há alguns anos. A minha vida não mudou.

(…)

Que carro é que tem?
Só tenho um carro meu, que comprei há uma data de anos e que não vendo, porque a minha filha adora-o, diz que quer ficar com ele quando fizer 18 anos. É um Volvo Cabrio antigo. Os outros carros são os que os patrocinadores me dão. Em Portugal tenho um Lexus, aqui tenho um Audi e agora vai haver qualquer coisa com a Porsche. Gosto de relógios. De vez em quando compro um relógio bocadinho melhor.

Faz colecção de relógios?
Não é propriamente uma colecção. Mas gosto. Quando compro um para mim, compro também um para a minha mulher, na perspectiva de, no futuro, um ser para a Tita e um para o Zuca.

Diz que gosta de viver sob pressão. Isso normalmente traz algum sofrimento. As pessoas sob pressão tendem a ser ansiosas.
Não sofro no futebol. É evidente que, quando a bola bate no poste e não entra, há alterações no batimento cardíaco que têm a ver com a própria natureza do jogo. Agora o sofrimento de desespero ou de ansiedade, não tenho.

Parece a quem está de fora que nunca está satisfeito com o que tem. Uma vitória é apenas um passo para a vitória que vem a seguir?
As vitórias acontecem num momento e fazem parte da história. E é o fim da nossa carreira ou a seguir há mais.

Tem medo de se sentir demasiado feliz?
Quero é mais. Uma coisa que chateia a minha mulher é eu acabar um jogo e ela pensar que por umas horas não há futebol, mas eu já estou a pensar no próximo. 

Logo na hora?
Se chego a casa às seis da tarde, como faço depois de um jogo, brinco com os miúdos um bocado, vou jantar fora com a minha mulher e sou capaz de regressar a casa e ir preparar o treino para daí a dois dias ou formar a equipa que vai jogar.

Mesmo depois de uma vitória retumbante?
Sim, pode acontecer. Fiz um acordo com a minha mulher e consegui cumpri-lo: quando a época acaba, há um período em que eu trabalho, para depois haver um período em que ninguém me vai telefonar nem eu vou telefonar a ninguém. Porque, no fundo, o futebol é continuidade. Se calhar um dia vou pôr uma meia-dúzia de meses sabáticos.

Depois de 2010, imagino…
Sim. Vou fazer qualquer coisa que nunca me permiti fazer. Não sei o que são férias de Inverno, ir com os filhos para a neve. Não sei o que é passar um Natal e um fim de ano em família. Há coisas que eu e a minha família não sabemos o que é.

Quer dizer que não tem tido tempo para ser feliz?
Em qualquer família há momentos que são inesquecíveis também pela negativa. São coisas que deixam a sua marca de forma eterna. Podemos todos ter um Natal muito feliz, mas a minha família não se esquece que perdemos a minha irmã há meia dúzia de anos atrás e o sobrinho da minha mulher há meia dúzia de meses. Isso não nos permite a felicidade total. Mas consegui mais do que eu podia ter sonhado. Sou uma pessoa que se pode dizer feliz. Não é uma derrota ou um campeonato perdido que vai fazer com que eu deixe de ser um homem feliz.

Vai passar o Natal em Londres?
Pela primeira vez desde que estou cá, vou passá-lo a Portugal. A minha família vai mais cedo e vem mais tarde. Eu vou a 23 e venho a 25. Tenho jogos.

Por Micael Pereira

Disponível aqui:  http://expresso.clix.pt/Dossies/Interior.aspx?content_id=374118&name=Entrevista%20integral%20de%20Jos%C3%A9%20Mourinho%20ao%20EXPRESSO

 

Uma entrevista interessante e que nos traz novas informações sobre a vida de Mourinho, sobre a qual tanto se escreve. As perguntas têm como objectivo a descoberta de novas  informações sobre o tão aclamado treinador português.  É importante ressalvar o a citação escolhida para título “Sinto-me demasiado popular em Londres”, sem dúvida surpreendente e inesperada, tento em conta aquilo que Mourinho deixa transparecer como pessoa para o mundo do futebol.

Entrevista ao fotojornalista Eduardo Gageiro

A revista Única de 16 de Dezembro de 2006 apresenta uma entrevista a Eduardo Gageiro, fotojornalista português, a propósito da publicação do seu mais recente livro «Fé, Olhares sobre o Sagrado», que reúne fotografias tiradas ao longo da sua carreira. A entrevista, conduzida por Ana Soromenho e Luiz Carvalho, e o Portfolio do autor constituem um todo muito interessante porque, “olharmos” para o percurso deste fotojornalista é olharmos também para o percurso do fotojornalismo e do próprio país.

Reproduzo o ante-título, título, entrada da entrevista e alguns excertos da mesma. Considero a entrada para a entrevista particularmente interessante, uma vez que dá uma visão geral do trabalho de Gageiro, centrando-se em momentos históricos marcantes. Apenas considero menos feliz a comparação “Se Gageiro cantasse, seria Amália”, mas passa desapercebido no meio da informação de qualidade que a entrevista oferece.

 

 

“Registou os anos de Salazar e estava na frente do 25 de Abril. Eduardo Gageiro, decano dos fotojornalistas portugueses, 71 anos, edita agora «Fé, Olhares sobre o Sagrado», uma obra com mais de 200 fotos que fez pelo Mundo.”

 

“com uma máquina fotográfica à frente

nunca senti medo”

Eduardo Gageiro

“Partiu a loiça quando o pai o quis obrigar a ser um manga-de-alpaca na Fábrica de Loiça de Sacavém. Corriam os anos cinquenta a preto e branco do salazarismo. Amealhou para uma Rolleicord e com ela fotografou os rostos do neo-realismo português.

Em 1956 já estava nos jornais e desde então fixou imagens emblemáticas da «aventura» portuguesa. Os tristes adeus dos embarques para as colónias, os peregrinos de Fátima, as tragédias do Vulcão dos Capelinhos ou as cheias de 1967, o transe dos fiéis da Santa da Ladeira, as lágrimas dos medalhados do Dia da Raça, as mulheres da Nazaré arrastando consigo a força do mar, o último beijo de Maria a Salazar, mas também a Festa Patiño, as primeiras misses portuguesas, a glória de Eusébio, Amália. Se Gageiro cantasse, seria Amália.

Volvidos anos de caminho entre gentes, Gageiro mostra agora aquele que é um dos fios condutores na sua obra: o rosário visual das religiões. O livro aí está e com ele esta entrevista de vida.

[…]

Quando começou a fotografar, em 1956, quem eram os fotógrafos que o inspiravam?

Sobretudo os da “Life”. Naquela época, praticamente não havia revistas.
Sempre fui autodidacta. Na verdade comecei a fotografar aos 12 anos, quando um tio meu ofereceu ao meu irmão Armando uma Kodak «baby» de plástico. Aquilo era um brinquedo fantástico. Ia passar férias para casa de uma tia, para os lados de Arruda dos Vinhos – havia lá um sítio de que gostava muito, chamava-se o Moinho do Céu – e fazia umas fotografias muito bucólicas. A primeira foi um pastor e um moleiro. Na altura, o «Diário de Notícias» publicava na primeira página as fotografias dos leitores. Mandei e publicaram-me duas.

São dessa época algumas das fotografias da Fábrica de Loiça de Sacavém?
Fui para a Fábrica de Loiça com 13 anos. Quando acabei a quarta classe (actual quarto ano), o meu pai mandou-me para a fábrica, para ser empregado de escritório. Ele achava que ser manga-de-alpaca era uma grande promoção social.

[…]

Esse tempo da sua infância faz lembrar o Portugal de Soeiro Pereira Gomes.

E era mesmo assim. Sacavém era uma vila operária e a vida era como nos livros dos neo-realistas.

[…]

De onde lhe vinha essa ideia fixa de ser fotógrafo?
Nem eu sei. Retratar as pessoas era muito gratificante. Talvez aquela ideia de fazer documentos e eternizar o momento. Eu fazia fotografia sem qualquer conhecimento estético. Na fábrica gostava muito de estar com os escultores e os pintores e foram eles que me ensinaram a fazer enquadramentos e coisas assim. Nessa altura também comecei a fotografar com máquinas melhores.

[…]

Quando começou a publicar?

A partir de certa altura mandava fotografias para todos os concursos e comecei a receber prémios. O meu pai detestava. Considerava que ser fotógrafo era extremamente pejorativo. Nessa época comecei a fazer parte do grupo cultural O Sacavenense, onde aparecia gente já formada e universitários. Eu era o menos culto, mas eles incentivavam-me imenso porque era muito curioso e muito interessado em aprender. Começaram a dar-me livros para ler, organizávamos eventos culturais giríssimos, lembro-me de termos lá levado o coro do Fernando Lopes Graça. Era tudo malta de esquerda, embora não se discutisse política desse modo. Só mais tarde, eu e o Mário Ventura, que morava ao meu lado, começamos a publicar juntos numas revistas e às tantas ele conseguiu entrar para o «Diário Popular». O pai dele era um homem muito sociável, organizava uns jantares e convidava muitos jornalistas. Num desses jantares conheci o Jorge Tavares Rodrigues, director do «Diário Popular», que me disse para aparecer no «Diário Ilustrado». Fiquei entusiasmadíssimo e lá fui. Quando comecei a trabalhar, fugi imediatamente da fábrica e refugiei-me em casa da minha tia porque o meu pai andava atrás de mim para me bater.

Quantos anos tinha?
Mais de 18. Cheguei ao «Diário Ilustrado» para ser fotógrafo e puseram-me no laboratório a revelar rolos. Na altura os jornais eram dominados pela máfia da fotografia que fazia inaugurações, conferências de imprensa e pouco mais. Eram dois ou três em cada jornal e trocavam fotografias entre eles. «Ó Fernando, foste fazer aquela conferência do Tenreiro [almirante e presidente do Grémio do Bacalhau]? Olha, eu fui fazer aquilo e tu não estavas lá. Então vou mandar-te um boneco e tu mandas-me aquela…» Era assim. Nem o chefe de redacção tinha poder sobre os fotógrafos. Estavam acima de tudo.

Como é que conseguiu furar o esquema e começar a fotografar?
Um dia era preciso um fotógrafo para ir a uma entrevista ao Mário Dionísio e não estava lá mais ninguém, só eu. Aproveitei a oportunidade e fiz umas fotos com o «flash». Mas não disparava o «flash» de qualquer maneira. Punha-o na lateral, o que dava uma luz completamente diferente. Parecia estúdio. No fim perguntei ao Mário Dionísio se não se importava de ser fotografado de pé na biblioteca. Ele fumava cachimbo e fiz aquelas coisas com o fumo, um bocado óbvias, mas completamente diferente do que se fazia. Naquela época, nos jornais, era meia bola e força. Eu dava-me muito com os redactores, que começaram a exigir que fosse que a fazer determinados serviços. Mas quem marcava a agenda eram os fotógrafos – e eles marcavam-me os piores serviços. Foi uma luta tenaz até conseguir ter alguma aceitação do meio. Diziam: «Este gajo só faz fotografias de meninos ranhosos e velhos desdentados.» Por acaso não tenho nada no género.

 

Mas durante os anos sessenta estava n’«O século Ilustrado». Os seus melhores trabalhos foram publicados nesse período…

Isso foi depois de ter ficado desempregado, quando o «Diário Ilustrado» acabou. Foi um tempo terrível. Passados seis meses recebi uma carta do presidente do Sindicato dos Jornalistas a pedir-me para devolver a carteira profissional. Percebi que era uma persona non grata. Fazia fotografias que eram incómodas. Não tinham mal nenhum, mas achavam que eu dava má imagem de Portugal. Eu limitava-me a fotografar o que sentia. Fui até preso por causa de uma fotografia que fiz na Nazaré.

 

[…]

 

Quanto tempo esteve preso?
Uns dias. O suficiente para ficar assustado. Isto passou-se no tempo de Rui Patrício [ministro dos Negócios Estrangeiros], que tentava dar uma imagem mais arejada de Portugal e fazia um almoço mensal com a imprensa estrangeira. Num desses almoços, o jornalista da AP [Associated Press] perguntou porque é que eu estava preso. Devem ter-se sentido pressionados e foram buscar-me a Caxias para ser interrogado. Diziam que eu dava uma imagem negativa do país: «Portugal tem paisagens tão bonitas…Por que não tira outro tipo de fotografias?» – era essa a conversa deles. Mas durante dois anos fiquei completamente atordoado e não mandava fotografias para lado nenhum.

[…]

 

Quando fotografou o enterro de Salazar tinha a consciência de que estava a fotografar um grande momento histórico? Como foi fazer aquela fotografia da Dona Maria a despedir-se do Presidente do Conselho (de quem era governanta) dentro do caixão?
Fui o único que estive lá até ao fim. Calculei que iriam fechar o caixão e que a Maria poderia querer despedir-se. Pensei: «Se calhar é hoje. Vou aguentar». Fiquei ali à espera. Fui comer uma sandes – adoro comer – e no momento antes de fecharem o caixão, em público e pela primeira vez, a Maria dá um beijo ao Salazar. Fiz aquela sequência fantástica. Não saiu. A Censura não deixou.

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Testemunhou momentos históricos do século XX. Qual destacaria como o mais importante na sua carreira?
O 25 de Abril. Sem dúvida. Quando um fotógrafo tem a Censura e não pode fazer as fotografias que quer, qual é a sua ambição?

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É o único fotógrafo-comendador em Portugal…
Acho que sim. Mas não tenho cara de comendador!

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Finalmente vai ter uma máquina digital. Vai mesmo usá-la?
Não sei. Só o gozo que me dá estar no laboratório a meter as mãos nos líquidos, a queimar de um lado e do outro. O digital…Não se esqueçam que eu saí de casa para não ser empregado de escritório. Vou agora outra vez carregar nas teclas? Odeio teclas.”

 

Neste link encontram-se algumas fotografias que integram o livro «Fé, Olhares sobre o Sagrado.»
http://expresso.clix.pt/Multimedia/Interior.aspx?content_id=373976

 

 

 

“Não caímos aqui de pára-quedas”

“Diz que não vai ter posição pública sobre o aborto, mas defende que a actual lei “é boa”. É contra a legalização da prostituição e contra as quotas, porque não se sentiria bem a ocupar um lugar apenas para “cumprir uma percentagem”. Eis Maria Cavaco Silva, sem tabus”

“O GABINETE AINDA ESTÁ TAL E qual a sua antecessora o deixou. Um tapete de Arraiolos m, meio remendado, uns sofás desbotados, de cor indefinida, e uma cortina pesada que não ajuda a deixar passar a luminosidade. Maria Cavaco Silva, 68 anos, bem desejaria renovar o espaço, a seu gosto. Mas o orçamento não dá para essas estravagâncias. A opção foi acrescentar elementos que ajudem a criar um ambiente mais personalizado: fotos da família, alguns quadros, um candeeiro e flores.

Durante quase duas horas, a primeira-dama, ou melhor, a mulher do Presidente, como prefere ser tratada, não se furtou a nenhuma pergunta. Na sua primeira entrevista desde que chegou a Belém, assume-se politicamente como sendo de centra-esquerda, solta uma gargalhada quando a qualificam de católica-conservadora e propõe-se a ser mais pró-activa do que reactiva, nas funções que vai desempenhar até ao final do mandato de Cavaco Silva.

Por agora, em vez de poemas, dedica-se a escrever os seus próprios discursos a lápis, em pequenas folhas que manda guardar religiosamente. Mas não abdica de continuar a receber os netos, ao fim de um dia de trabalho. Como aconteceu, depois de falar com a VISÃO.”

Estas são as palavras das jornalistas da VISÃO antes de transcreverem a entrevista realizada a Maria Cavaco Silva que foi tema de capa (semana de 7 a 13 de Dezembro), na qual a frase utilizada foi “Sou de centro esquerda”, por ser um facto que surge como novidade e que pode também ser um dado polémico. De frisar que é a primeira entrevista dada pela mulher do Presidente após a sua chegada a belém.

Resolvi destacar as respostas (excertos) mais polémicas e ricas em novidade, bem como as perguntas que as suscitaram:

VISÃO: É verdade que lhe chamavam Delgadinha por ter sido apoiante de Humberto Delgado?

Maria Cavaco Silva: [Gargalhada] Verdadíssima. (…) Eu era muito revolucionária e, quando Humberto Delgado se candidatou, houve um entusiasmo fantástico e eu embarquei muito na onda do entusiasmo. E como, fisicamente, era muito magrinha, os meus amigos da Faculdade de Letras começaram a chamar-me Delgadinha.

Se lhe pedissem para se definir politicamente, dir-se-ia de direita ou de esquerda?

[Pausa] Já fui de esquerda, quando era muito necessário. Agora, diria que sou de centro-esquerda.

Porque se define de centro-esquerda?

A esquerda corresponde mais a um ideal de pouca concretização. Com a direita não me identifico, porque, apesar de não ter partido, tomo atenção ao que eles vão dizendo e fazendo e não me identifico com os de direita. De maneira nenhuma. Também não me identifico com as posições de partidos completamente à esquerda. (…)

É interessante a forma como se define, porque há quem a considere uma católica conservadora. Sente-se confortável com esse fato?

Não sabia que diziam isso, mas té me dá vontade de rir. É um fato capaz de me ficar um bocadinho largo. Largo ou estreito, não sei. Agora há a tendência para se dizer que se a pessoa é católica, é logo conservadora. (…)

Alguma vez conseguiu que o seu marido mdasse de ideias em relação a uma política?

Não. Acho que corre essa ideia de que eu, às vezes, governo por interposta pessoa. É errada.

Gosta de Saramago?

Gosto. O Memorial do Convento é um romance extraordinário. Depois há outros de que já não gosto tanto. Mas, apra mim, o Memorial é um marco na Literatura Portuguesa. Agora, há toda uma comunicação através do SMS, portanto, estamos em plena mudança. Temos de esperar para ver.

Continua a escrever poemas?

Agora, tenho escrito mais discursos.

Há igualdade de oportunidades entre homem e mulher, em Portugal?

Agora, já acho. As pessoas dizem que a mulher tem de ser sempre melhor que o homem para chegar aos lugares…

Acha que as mulheres, por exemplo, não estão nas administrações das empresas porque não querm, ou porque não são consideradas socialmente disponíveis para essas funções?É que se não são consideradas socialmente disponíveis, tal quer dizer que a sociedade não as encara de uma forma igualitária.

Mas os homens e as mulheres não são iguais.

Em termos de igualdade de oportunidades não deveriam sê-lo?

Acho que as pessoas têm de fazer as suas escolhas. Quando querem, seguem as suas carreiras.

Concorda com a existência de quotas para a participação das mulheres na vida política?

Para cumprir uma percentagem? Não me sentiria bem.

O aborto está na agenda político-social. Qual a sua posição sobre o assunto?

Não vou ter posição pública. Digo-lhe apenas que temos uma boa lei.

E sobre a legalização da prostituição?

Sou contra.

Há alguém lá fora ou cá dentro que constitua um padrão ou uma referência para si?

Não me rejo por padrões. Eu sou aquilo que sou e as pessoas cumprem de acordo com a sua personalidade e trajecto de vida.

Estes pequenos excertos devem servir como estímulo para a leitura deste entrevista que está muito bem conseguida e orientada. Os temas principais e mais polémicos são distribuídos ao longo do diálogo não deixando esmorecer a curiosidade e o interesse do leitor.

As fotografias complementam de forma rigorosa e simples a entrevista, bem como as pequenas caixas com as principais citações.

Um bom exemplo de entrevista das jornalistas Áurea Sampaio e Sónia Sapage. Fotos de Gonçalo Rosa da Silva.

Ler na VISÃO da semana de 7 a 13 de Dezembro.

Entrevista a José Saramago no “SOL” pág.2

A escolha desta entrevista de José Fialho Gouveia a José Saramago no semanário SOL é pertinente pelo peculiar carácter do entrevistado, pelas perguntas pertinentes e particulares (típicas deste tipo de entrevista no semanário) e pelas respostas tantas vezes surpreendentes.

Em primeiro lugar gostaria de destacar a frase escolhida para “título” da entrevista: “Não cumprimento Cavaco Silva”. Este título chama a atenção do leitor para algo que parece não ser possível. Um prémio Nobel da Literatura não cumprimentar o Presidente da República é algo suficientemente tentador para exigir uma leitura mais aprofundada da entrevista.  De seguida, chamo a atenção para as frases destacadas numa coluna em separado: “Marques Mendes parece-me uma coisa estranha”, “Santana Lopes é um imbecil”, “Não tenho orgulho em Durão Barroso”, “Nunca houve comunismo no mundo”, “Vivemos numa plutocracia, o governo dos ricos”, “A globalizaçao é um novo topo de totalitarismo”, “Os seres humanos não são de fiar” e “A política de Sócrates não é socialista”. Como se pode verificar são declarações polémicas, o que para quem conhece um pouco de José Saramago não é algo que se estranhe. No entanto, esta coluna surge também como incentivo à leitura, revelando os pontos-chave da entrevista.

 Ao folhear o semanário, apercebemo-nos que se trata de uma entrevista curta, com o objectivo de descobrir pequenas curiosidades e opiniões polémicas. O “nariz de cera” da entrevista é curto e claro: “JOSÉ Saramago, que lançou esta semana o livro Pequenas Memórias – um relato da sua infância e adolescência -, trocava o Nobel por mais 15 anos de vida, com esperança de o voltar a ganhar”. Cria algum suspense e curiosidade.

Em relação às perguntas realizadas podemos facilmente verificar que denotam uma busca incessante pela novidade, pela controvérsia (pela qual o entrevistado é muito conhecido) e pela polémica. Ao ler toda a entrevista descobrimos um pouco mais sobre o escritor e, principalmente, sobre a sua visão da política e dos seus actuais e principais intervenientes. Não deixa de ser curioso que, apesar de José Saramago ter lançado o seu livro esta semana, nenhuma das perguntas se refiram ao mesmo, o que não deixa de ser também surpreendente mas que não faz com que a entrevista perca qualidade.

Quem leia atentamente a entrevista verifica a existência de uma espécie de diálogo entre entrevistador e entrevistado, e este chega mesmo a fazer uma pergunta à qual o entrevistador responde. É curioso este tipo de entrevista que, semanalmente o SOL publica, sempre com um intuito polémico e gerador de controvérsia. Busca a novidade, acima de tudo. Vale a pena ler.

 Disponível em http://sol.sapo.pt/EdicaoImpressa/10/1Caderno.aspx