“Eslarecimento aos leitores”

“RTP recusou manter parceria com o PÚBLICO

Ao fim de mais de dez anos de parceria entre o PÚBLICO, a Universidade Católica, a RTP e a RDP para a realização de sondagens, a direcção de informação da RTP decidiu, unilateralmente, romper o acordo informal, mas de cavalheiros, que ligava estas diferentes instituições. Fê-lo de modo abrupto e num momento difícil de compreender, pois a ruptura foi comunicada ao PÚBLICO e à Universidade Católica já depois de termos realizado a primeira reunião de trabalho para planear o ano de 2007 e, em particular, os trabalhos relativos ao referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. Essa reunião decorreu, com toda a normalidade, a 23 de Novembro de 2006.
Contudo, sem que nada o fizesse prever, no dia 12 de Dezembro o director de informação da RTP, Luís Marinho, comunicou por e-mail ao director do PÚBLICO e informou a Universidade Católica que a televisão de serviço público não queria mais colaborar com este jornal. Motivos? Os expressos no primeiro parágrafo dessa missiva: “Nos últimos meses, depois das acusações proferidas por Eduardo Cintra Torres contra a Direcção de Informação da RTP, subscritas em parte por ti, verificou-se uma deterioração das relações entre o PÚBLICO e a RTP que não me parece facilmente reversível.”
Na verdade não ocorreu desde então, pelo menos da parte do PÚBLICO, qualquer deterioração das relações com a RTP. Mais: as acusações feitas por Eduardo Cintra Torres foram editadas neste jornal em Agosto de 2006 e, em Outubro, o PÚBLICO, a RTP e a RDP voltaram a juntar-se para trabalhar com a Universidade Católica numa sondagem. Depois disso não houve, da minha parte ou do jornal enquanto instituição, qualquer nova referência à RTP ou aos seus critérios editoriais ou empresariais. Pelo contrário: o PÚBLICO mantém, numa parceria que também envolve a Rádio Renascença, um programa de entrevistas na 2: que os serviços informativos da RTP por vezes citam, reproduzindo algumas passagens, e o PÚBLICO mantém com a RTP acordos empresariais benéficos para ambas as partes.
O único evento de relevo ocorrido entre a reunião de 23 de Novembro e a missiva de 12 de Dezembro foi a divulgação da deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, ERC, sobre o texto publicado em Agosto por Eduardo Cintra Torres. Quem quer que tenha na ocasião lido o PÚBLICO pode verificar que este jornal reagiu de forma indignada e dura, mas que os textos visaram os poderes da ERC e o conteúdo da deliberação no que a este jornal dizia respeito, nunca se referindo a Direcção de Informação da RTP. Terão sido as críticas do PÚBLICO à forma como a ERC entendeu condenar um seu colunista e o seu director que levaram à citada “deterioração das relações”? Se foram, caberá à direcção de informação da RTP explicar porquê.
Não se perca, contudo, o sentido do essencial. E o que neste caso importa é que existia, há mais de uma década, uma relação institucional estável entre o PÚBLICO, a RTP, a RDP e a Universidade Católica. Nesse período sempre representei o PÚBLICO nas reuniões de trabalho, onde fui conhecendo os membros ou representantes de sucessivas direcções de informação da RTP. Correndo o risco de falhar alguma alteração nas suas muitas mudanças de chefia, sucederam-se nestes dez anos à frente da RTP direcções personificadas por Joaquim Furtado, Fernanda Mestrinho, José Rodrigues dos Santos, Emídio Rangel, de novo José Rodrigues dos Santos e, por fim, Luís Marinho. Ocorreram também mudanças de governo e de ministros da tutela, mas nem elas impediram, ou estimularam, que o PÚBLICO editasse inúmeros textos, de opinião ou editoriais, fortemente críticos da RTP. Da mesma forma o PÚBLICO e eu próprio fomos muitas vezes criticados em programas da RTP, o que sempre foi entendido, nesta casa, como sendo normal e até saudável.
Tal como escrevi na missiva que enviei a Luís Marinho e da qual enviei cópias aos administradores da RTP e ao seu provedor, “a minha cultura democrática permite separar as instituições das pessoas, tal como me permite divergir das opções e dos comportamentos daqueles com quem trabalho sem que para isso tenha de engolir em seco, antes tornando claros os meus pontos de vista”. Mais: “A minha cultura de cidadania obriga-me, em contrapartida, a ser mais exigente e vigilante relativamente ao operador de televisão que é financiado por taxas e impostos pagas pelos cidadãos. Ao mesmo tempo que, sendo possível, porque acredito que todo o bom jornalismo é serviço público, tal como creio que o jornal que dirijo tem (…) feito muito pela qualidade da informação e pelo nível do debate público, acredito que a nossa colaboração com os operadores de capital público é um contributo positivo para a qualidade dos mesmos, logo, passe a imodéstia, outra forma de servirmos a comunidade. Verifico porém que esta forma de estar na vida e na profissão não é partilhada por todos.”
Porém, nem sequer os esforços dos responsáveis da Universidade Católica e do seu Centro de Sondagens para manter a parceria tiveram qualquer eco. Forças mais altas se terão levantado e a RTP preferiu deixar de trabalhar com o jornal que um estudo académico recente (Fernando Vasco Moreira Ribeiro, Faculdade de Letras da Universidade do Porto) mostrou ser aquele que, precisamente nestes últimos dez anos e apesar das mudanças de governo, sempre demonstrou maior independência e menor dependência de fontes governamentais ou oficiais. São escolhas que falam por quem as faz.
Face à situação criada, e não fazendo o PÚBLICO parte de qualquer grupo de comunicação social, regressámos, de alguma forma, às origens. Voltamos a trabalhar com a TVI, como já fizemos no passado e junto de quem encontrámos de novo, agora através do seu director-geral, José Eduardo Moniz, a maior receptividade para o estabelecimento de uma parceria que também engloba o renovado Rádio Clube. Deixamos de trabalhar com a Universidade Católica, por cujo rigor mantemos todo o apreço, e passamos a trabalhar com a Intercampus, uma empresa de créditos firmados no sector dos trabalhos de campo para recolha e tratamento da informação e com uma dimensão que lhe permite assegurar qualidade e fiabilidade, como têm comprovado as boas previsões que fez em anteriores eleições.”

José Manuel Fernandes, in Público, 12 de Janeiro de 2007

Vale MESMO a pena ler…TUDO!

Ana Maltez

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