Há lugares que não existem!

“Cada vez que o Estado financiar 2,3 abortos está a não pagar, a adiar ou a excluir uma operação. “Estas palavras – todas elas e exactamente alinhadas deste modo – foram proferidas pelo social – democrata António Borges que com este argumento apelou a semana passada ao “não” no referendo de 11 de Fevereiro.

Li e reli a frase. Ponderei no seu sentido. E finalmente cheguei à conclusão de que me falta a capacidade intelectual para perceber o argumento. Não o entendo! Por que não dizer que de cada vez que o Estado paga uma operação aos olhos, quatro pessoas deixam de poder ser operadas à vesícula? Ou que, por cada operação ao coração, ficam dois rins por “reparar”?

Quando já faltam poucas semanas para o referendo à despenalização do aborto, é triste assitir a uma troca de argumentos que já nada têm que ver com o que está verdadeiramente em causa. No lado do “não” atiram-se os impostos para cima da mesa. Como se fosse o dinheiro o critério de decisão. Mas pior! Do outro lado da barricada houve quem respondesse dentro da mesma linha de argumentação. Ou dito de outra forma, mordeu o isco.

Se é de números que falamos, então vamos a eles. A cada seis minutos, morre uma mulher vítima de um aborto clandestino, feito em más condições. Não sei quanto custa a vida de uma mulher. Não consultei as tabelas que determinam, em caso de desgraça, quanto vale uma mão direita e uma esquerda, um olho e um dente. Uma vida.

E se é de estatísticas que querem, aqui estão elas. Na Roménia em 1966 o aborto legal foi restringido e a taxa de mortalidade de mulheres grávidas causada por abortos clandestinos aumentou dramaticamente, tornando-se dez vezes mais alta que no resto da Europa. Em 1989 o aborto foi de novo legalizado quando pedido pela mulher e a taxa de mortalidade de mulheres grávidas diminuiu drasticamente. Em contraste, a Holanda tem a taxa de aborto declarado mais baixa da Europa porque tem leis não restritivas ao aborto, leis estas, inseridas numa estrutura que inclui: educação sexual universal nas escolas, serviços de planeamento familiar de acesso fácil e fornecimento de contracepção de emergência. Às mulheres talvez seja agora, finalmente, concedido o direito fundamental à sua própria decisão e à sua integridade psíquica ( incluindo durante o período de gravidez).

O que está em cima da mesa, não é um disputa entre a direitta e a esquerda, entre quem tem dinheiro e pode, se necessário, deslocar-se a uma clínica no estrangeiro e fazer um aborto e quem não pode reclamar de uma intervenção mal feita. Muito menos é uma contenda entre os que defendem a vida e os outros. O que está aqui em causa é tentar resolver um problema que existe. E que infelizmente mata. Fisicamente umas vezes, psiquicamente tantas outras.

Rui Pedro Batista, in Metro, 8 de Janeiro de 2007

Escolhi este artigo  por me parecer ser um bom exemplo de como se deve escrever uma opinião. É de salientar que, grosso modo, todo o artigo obedece a todas as regras de escrita do género: aparece sobre a rubrica de “ponto de vista” e o nome do jornalista aparece destacado, o que pressupõe logo que a visão do jornalista é importante; o tema é um tema central da actualidade e que merece, pois, especial atenção para alguns artigos de opinião. Todo o artigo nos remete para um ponto de vista de quem o escreve como podemos ver em expressões como ” é triste” e ” Mas pior!”, acompanhados de alguma ironia à mistura; é precisamente isso que diferencia um artigo de opinião de um artigo de análise, por exemplo, em que o jornalista se limitaria a expor dados relevantes sobre o aborto e fazer um interligação entre eles. O que verificamos aqui é precisamente o oposto, na medida em que conseguimos extrair daqui o seu juízo de valor e a partir daí formármos o nosso próprio pensamento. Parece-me que é um bom exemplo de como de faz bom Jornalismo.

Ana Cristina Queimado

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