“Contra a demagogia”

Numa altura em que muito se fala sobre a percentagem que os jogadores profissionais de futebol devem descontar para o IRS, surge uma coluna na Revista Dez, do Record, em que João Marcelino, director do Correio da Manhã, critica severamente a posição de Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores. Apesar do tom corrosivo ser, na minha opinião, excessivo, o jornalista acaba por abordar, de uma forma directa, o outro lado da profissão, isto é, sem a encarar como a galinha de ovos de ouro. A coluna é polémica e pode ser encarada como um contributo importante para a discussão sobre o tema.

 “Eu acho que os futebolistas devem descontar para o IRS a 100% e não aceito nenhum dos argumentos do Sindicato dos Jogadores, replicados pela corporação e por outros que por lá passaram, e que aliás considero absolutamente hipócritas sempre que não são apenas destituídos por inteligência.

Primeiro, a tese da profissão de desgaste rápido. Por favor, poupem-me! Profissão de desgaste rápido é a dos mineiros. Esses homens, sim, saem das entranhas da terra com doenças que os levam dali para a morte, precoce, ou para uma vida sem qualidade. Os futebolistas, aos 30 e poucos anos, apenas deixam de ser atletas de alta competição. Continuam a ser pessoas, felizmente com saúde, e estão em muito boa idade para entrarem no mercado de trabalho. Para isso, aliás, ficam até com acrescidas possibilidades de êxito, uma vez que não só podem continuar ligados à indústria noutras posições (treinador, secretário-técnico, dirigente, empresário etc.) como estabelecem contactos sociais importantes no sentido de virem a fazer carreira nos negócios ou mesmo arranjarem um emprego (que é sempre uma boa maneira, e digna, de ganhar a vida). Felizmente, há inúmeros bons exemplos que podem ser apontados neste sentido.

Depois, e porque nestas alturas, bondosamente, os chamados “craques” se lembram de invocar os seus irmãos desprotegidos como o Marco, eu cito palavras do presidente do Sindicato, Joaquim Evangelista. Diz ele: “Num universo de 32 clubes da Liga, e de centenas de clubes das divisões inferiores, apenas cinco por cento dos futebolistas ganham muito dinheiro. Outros, que deixam de estudar para tentarem ser como os Cristianos Ronaldos, têm carreiras de dez anos e, no final, não têm preparação para outras profissões”.

Ao contrário do que pretenderia Evangelista, este é o argumento que me faltava. Eu explico: os ricos (jogadores) podem e devem pagar – penso que estamos todos de acordo, até ele. Aliás, a lei 32-B/2002 já dispunha, desde 2003, o incremento anual de 10% sobre o rendimento colectável como transição do regime de pagamento de 60% do IRS para os 100% em 2007. (A questão, se virmos bem, é saber se os clubes e atletas têm estado, ou não, a cumprir esta lei…).

Os outros futebolistas, aqueles que são tentados por uma arte para a qual não têm manifestamente capacidade (muitas vezes empurrados pelo apoio ganancioso e criminoso dos pais, que os autorizam a faltar à escola e a descurar o futuro), só terão a agradecer a todas as leis rigorosas que lhes façam equacionar o perigo de apostarem numa única actividade, ainda por cima datada em termos biológicos. O futebol deve deixar de ser pasto para indolentes que se encostam ao jogo da bola e passam dez anos da vida sem se preocuparem com o seu futuro e o das respectivas famílias. Pode jogar-se futebol e, ao mesmo tempo, acautelar uma futura via profissional. Há muito tempo para isso entre os treinos e os jogos. A tese contrária é indefensável e socialmente inaceitável.

Se a aplicação de um quadro legal justo, por igual para todos, afastar da profissão alguns pernas de pau sem as mínimas condições para ganharem a vida a jogar futebol, óptimo. Se esta legislação servir para ajudar esses mesmos rapazes a pensarem duas vezes antes de se atirarem à bola e requalificar o papel das respectivas famílias, melhor ainda.

O futebol é uma actividade de risco apenas e só na medida em que o são todas as outras. Por que é que a lei haveria de discriminar positivamente os rapazes que optam por prolongar a juventude pelos relvados adentro e teria de esquecer os que gostam de fazer esqui, de jogar golfe ou bowling, de serem artistas de circo ou dedicarem-se à música? Alguém me explica?”

Joana Paixão Brás

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