Entrevista ao fotojornalista Eduardo Gageiro

A revista Única de 16 de Dezembro de 2006 apresenta uma entrevista a Eduardo Gageiro, fotojornalista português, a propósito da publicação do seu mais recente livro «Fé, Olhares sobre o Sagrado», que reúne fotografias tiradas ao longo da sua carreira. A entrevista, conduzida por Ana Soromenho e Luiz Carvalho, e o Portfolio do autor constituem um todo muito interessante porque, “olharmos” para o percurso deste fotojornalista é olharmos também para o percurso do fotojornalismo e do próprio país.

Reproduzo o ante-título, título, entrada da entrevista e alguns excertos da mesma. Considero a entrada para a entrevista particularmente interessante, uma vez que dá uma visão geral do trabalho de Gageiro, centrando-se em momentos históricos marcantes. Apenas considero menos feliz a comparação “Se Gageiro cantasse, seria Amália”, mas passa desapercebido no meio da informação de qualidade que a entrevista oferece.

 

 

“Registou os anos de Salazar e estava na frente do 25 de Abril. Eduardo Gageiro, decano dos fotojornalistas portugueses, 71 anos, edita agora «Fé, Olhares sobre o Sagrado», uma obra com mais de 200 fotos que fez pelo Mundo.”

 

“com uma máquina fotográfica à frente

nunca senti medo”

Eduardo Gageiro

“Partiu a loiça quando o pai o quis obrigar a ser um manga-de-alpaca na Fábrica de Loiça de Sacavém. Corriam os anos cinquenta a preto e branco do salazarismo. Amealhou para uma Rolleicord e com ela fotografou os rostos do neo-realismo português.

Em 1956 já estava nos jornais e desde então fixou imagens emblemáticas da «aventura» portuguesa. Os tristes adeus dos embarques para as colónias, os peregrinos de Fátima, as tragédias do Vulcão dos Capelinhos ou as cheias de 1967, o transe dos fiéis da Santa da Ladeira, as lágrimas dos medalhados do Dia da Raça, as mulheres da Nazaré arrastando consigo a força do mar, o último beijo de Maria a Salazar, mas também a Festa Patiño, as primeiras misses portuguesas, a glória de Eusébio, Amália. Se Gageiro cantasse, seria Amália.

Volvidos anos de caminho entre gentes, Gageiro mostra agora aquele que é um dos fios condutores na sua obra: o rosário visual das religiões. O livro aí está e com ele esta entrevista de vida.

[…]

Quando começou a fotografar, em 1956, quem eram os fotógrafos que o inspiravam?

Sobretudo os da “Life”. Naquela época, praticamente não havia revistas.
Sempre fui autodidacta. Na verdade comecei a fotografar aos 12 anos, quando um tio meu ofereceu ao meu irmão Armando uma Kodak «baby» de plástico. Aquilo era um brinquedo fantástico. Ia passar férias para casa de uma tia, para os lados de Arruda dos Vinhos – havia lá um sítio de que gostava muito, chamava-se o Moinho do Céu – e fazia umas fotografias muito bucólicas. A primeira foi um pastor e um moleiro. Na altura, o «Diário de Notícias» publicava na primeira página as fotografias dos leitores. Mandei e publicaram-me duas.

São dessa época algumas das fotografias da Fábrica de Loiça de Sacavém?
Fui para a Fábrica de Loiça com 13 anos. Quando acabei a quarta classe (actual quarto ano), o meu pai mandou-me para a fábrica, para ser empregado de escritório. Ele achava que ser manga-de-alpaca era uma grande promoção social.

[…]

Esse tempo da sua infância faz lembrar o Portugal de Soeiro Pereira Gomes.

E era mesmo assim. Sacavém era uma vila operária e a vida era como nos livros dos neo-realistas.

[…]

De onde lhe vinha essa ideia fixa de ser fotógrafo?
Nem eu sei. Retratar as pessoas era muito gratificante. Talvez aquela ideia de fazer documentos e eternizar o momento. Eu fazia fotografia sem qualquer conhecimento estético. Na fábrica gostava muito de estar com os escultores e os pintores e foram eles que me ensinaram a fazer enquadramentos e coisas assim. Nessa altura também comecei a fotografar com máquinas melhores.

[…]

Quando começou a publicar?

A partir de certa altura mandava fotografias para todos os concursos e comecei a receber prémios. O meu pai detestava. Considerava que ser fotógrafo era extremamente pejorativo. Nessa época comecei a fazer parte do grupo cultural O Sacavenense, onde aparecia gente já formada e universitários. Eu era o menos culto, mas eles incentivavam-me imenso porque era muito curioso e muito interessado em aprender. Começaram a dar-me livros para ler, organizávamos eventos culturais giríssimos, lembro-me de termos lá levado o coro do Fernando Lopes Graça. Era tudo malta de esquerda, embora não se discutisse política desse modo. Só mais tarde, eu e o Mário Ventura, que morava ao meu lado, começamos a publicar juntos numas revistas e às tantas ele conseguiu entrar para o «Diário Popular». O pai dele era um homem muito sociável, organizava uns jantares e convidava muitos jornalistas. Num desses jantares conheci o Jorge Tavares Rodrigues, director do «Diário Popular», que me disse para aparecer no «Diário Ilustrado». Fiquei entusiasmadíssimo e lá fui. Quando comecei a trabalhar, fugi imediatamente da fábrica e refugiei-me em casa da minha tia porque o meu pai andava atrás de mim para me bater.

Quantos anos tinha?
Mais de 18. Cheguei ao «Diário Ilustrado» para ser fotógrafo e puseram-me no laboratório a revelar rolos. Na altura os jornais eram dominados pela máfia da fotografia que fazia inaugurações, conferências de imprensa e pouco mais. Eram dois ou três em cada jornal e trocavam fotografias entre eles. «Ó Fernando, foste fazer aquela conferência do Tenreiro [almirante e presidente do Grémio do Bacalhau]? Olha, eu fui fazer aquilo e tu não estavas lá. Então vou mandar-te um boneco e tu mandas-me aquela…» Era assim. Nem o chefe de redacção tinha poder sobre os fotógrafos. Estavam acima de tudo.

Como é que conseguiu furar o esquema e começar a fotografar?
Um dia era preciso um fotógrafo para ir a uma entrevista ao Mário Dionísio e não estava lá mais ninguém, só eu. Aproveitei a oportunidade e fiz umas fotos com o «flash». Mas não disparava o «flash» de qualquer maneira. Punha-o na lateral, o que dava uma luz completamente diferente. Parecia estúdio. No fim perguntei ao Mário Dionísio se não se importava de ser fotografado de pé na biblioteca. Ele fumava cachimbo e fiz aquelas coisas com o fumo, um bocado óbvias, mas completamente diferente do que se fazia. Naquela época, nos jornais, era meia bola e força. Eu dava-me muito com os redactores, que começaram a exigir que fosse que a fazer determinados serviços. Mas quem marcava a agenda eram os fotógrafos – e eles marcavam-me os piores serviços. Foi uma luta tenaz até conseguir ter alguma aceitação do meio. Diziam: «Este gajo só faz fotografias de meninos ranhosos e velhos desdentados.» Por acaso não tenho nada no género.

 

Mas durante os anos sessenta estava n’«O século Ilustrado». Os seus melhores trabalhos foram publicados nesse período…

Isso foi depois de ter ficado desempregado, quando o «Diário Ilustrado» acabou. Foi um tempo terrível. Passados seis meses recebi uma carta do presidente do Sindicato dos Jornalistas a pedir-me para devolver a carteira profissional. Percebi que era uma persona non grata. Fazia fotografias que eram incómodas. Não tinham mal nenhum, mas achavam que eu dava má imagem de Portugal. Eu limitava-me a fotografar o que sentia. Fui até preso por causa de uma fotografia que fiz na Nazaré.

 

[…]

 

Quanto tempo esteve preso?
Uns dias. O suficiente para ficar assustado. Isto passou-se no tempo de Rui Patrício [ministro dos Negócios Estrangeiros], que tentava dar uma imagem mais arejada de Portugal e fazia um almoço mensal com a imprensa estrangeira. Num desses almoços, o jornalista da AP [Associated Press] perguntou porque é que eu estava preso. Devem ter-se sentido pressionados e foram buscar-me a Caxias para ser interrogado. Diziam que eu dava uma imagem negativa do país: «Portugal tem paisagens tão bonitas…Por que não tira outro tipo de fotografias?» – era essa a conversa deles. Mas durante dois anos fiquei completamente atordoado e não mandava fotografias para lado nenhum.

[…]

 

Quando fotografou o enterro de Salazar tinha a consciência de que estava a fotografar um grande momento histórico? Como foi fazer aquela fotografia da Dona Maria a despedir-se do Presidente do Conselho (de quem era governanta) dentro do caixão?
Fui o único que estive lá até ao fim. Calculei que iriam fechar o caixão e que a Maria poderia querer despedir-se. Pensei: «Se calhar é hoje. Vou aguentar». Fiquei ali à espera. Fui comer uma sandes – adoro comer – e no momento antes de fecharem o caixão, em público e pela primeira vez, a Maria dá um beijo ao Salazar. Fiz aquela sequência fantástica. Não saiu. A Censura não deixou.

[…]

Testemunhou momentos históricos do século XX. Qual destacaria como o mais importante na sua carreira?
O 25 de Abril. Sem dúvida. Quando um fotógrafo tem a Censura e não pode fazer as fotografias que quer, qual é a sua ambição?

[…]

É o único fotógrafo-comendador em Portugal…
Acho que sim. Mas não tenho cara de comendador!

[…]

Finalmente vai ter uma máquina digital. Vai mesmo usá-la?
Não sei. Só o gozo que me dá estar no laboratório a meter as mãos nos líquidos, a queimar de um lado e do outro. O digital…Não se esqueçam que eu saí de casa para não ser empregado de escritório. Vou agora outra vez carregar nas teclas? Odeio teclas.”

 

Neste link encontram-se algumas fotografias que integram o livro «Fé, Olhares sobre o Sagrado.»
http://expresso.clix.pt/Multimedia/Interior.aspx?content_id=373976

 

 

 

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4 Responses to “Entrevista ao fotojornalista Eduardo Gageiro”


  1. 1 JOSE LINO-----R T P--- Junho 9, 2008 às 9:57 pm

    Um abraço do teu amigo da R.T.P.fomos a India com Mário Soares.

  2. 2 zoltrix Setembro 23, 2008 às 5:15 pm

    Gageiro, um dos maiores, como Augusto Cabrita, Júlio Diniz e outros

  3. 3 julio limpinho Março 14, 2009 às 10:13 pm

    Será que tem outras fotos da Nazaré ? Apaixonado por esta Vila gostaria que ma mostrasse à sua maneira.

    Obgd.


  1. 1 Eduardo Gageiro | FOTOJORNALISMO - 2013 Trackback em Janeiro 17, 2014 às 7:09 pm

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