Aborto

O referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez aproxima-se e multiplicam-se os artigos, reportagens, sondagens e estudos sobre o tema. Até 11 de Fevereiro de 2007 a tendência mantém-se.

A TSF e a revista Visão noticiam, hoje, online os resultados do estudo da Associação para o Planeamento Familiar (APF) sobre as práticas do aborto em Portugal.

É interessante comparar a forma como cada um destes meios de comunicação dá a noticia e apresenta os dados do estudo.

 

“VISAOONLINE 13 Dez. 2006

Quase 15% das portuguesas já fizeram um aborto

 

Segundo as contas da Associação para o Planeamento da Família, cerca de 14,5% das mulheres entre os 18 e os 49 anos já fez uma interrupção voluntária da gravidez

De acordo com um estudo base sobre as práticas do aborto em Portugal, da Associação para o Planeamento da Família (APF), a apresentar esta quarta-feira, as portuguesas praticaram entre 17.260 a 18 mil abortos no último ano.

O inquérito – que envolveu 2 mil mulheres – revela que a grande maioria fez um único aborto e que cerca de 73% das que realizaram uma interrupção voluntária da gravidez (IVG) fizeram-no até às 10 semanas da gravidez.

O estudo, que será apresentado na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, indica que o grau de instrução não influencia na decisão da prática de aborto: 15,4% das praticantes de IVG tem o ensino básico, 13,2% o ensino secundário e 14,1% o ensino superior.

A religiosidade demonstra uma influência mais significativa, já que 16,7%o das mulheres que realizaram aborto eram não praticantes, 11,4% praticantes ocasionais e 2,6% praticantes frequentes.

O facto de serem muito jovens foi a razão que mais levou as mulheres a decidir abortar, decisão que a maioria classificou de muitíssimo difícil ou muito difícil.

O método de aborto mais utilizado foi a raspagem, seguido de comprimidos e aspiração. Em relação aos comprimidos, a maioria das mulheres arranjou-os através de uma pessoa amiga.

Segundo este estudo, 34,5% das mulheres teve necessidade de recorrer a um serviço de saúde para completar o aborto. As hemorragias são os problemas mais frequentes da IVG, seguidas de problemas emocionais. Para resolver estes problemas, as mulheres recorreram ao médico particular (31,9%) ou ao hospital (21,3%) e 27,4% teve necessidade de internamento.

Uma casa particular foi o local de realização do aborto mais indicado pelas mulheres que praticaram IVG, seguida de uma clínica privada e consultório público. O médico, seguido da parteira e do enfermeiro, foi o profissional mais indicado como autor da IVG.

A investigação da APF apurou ainda que 14,3% de mulheres que foram praticar a IVG a Espanha, realizando as restantes em Portugal.”

 

TSF ( 20:44 / 13 de Dezembro 06 )

18 mil abortos ilegais em Portugal em 2005

Na apresentação do estudo sobre a realidade portuguesa sobre o aborto ilegal, um estudo encomendado pela associação para o planeamento da família, a presidente da associação alerta para a falta de acompanhamento das mulheres após a Interrupção Voluntária da Gravidez.

Só ao ano passado devem ter sido realizados cerca de 18 mil abortos ilegais em Portugal. Um número que deve ser reduzido, avisa a presidente da associação Manuela Sampaio, pedindo que em Portugal se trabalhe para tornar o aborto seguro.

«Tornar o aborto raro e seguro e também mais humanizado», é uma prioridade em Portugal, sublinha a presidente da associação.

Manuela Sampaio sublinha ainda a solidão das mulheres após um acto que a deixa sem acompanhamento psicológico.

«O aborto é um acto que se pratica mediante pagamento, mas logo após o aborto a mulher é deixada ao abandono, confrontando-se com sentimentos de culpa e sem qualquer apoio psicológico», salienta a presidente da associação.”

 

 

A propósito deste estudo sugiro que vejam a excelente reportagem fotográfica “Aborto em Portugal” de João Carvalho Pina, fotógrafo da agência portuguesa Kameraphoto. Esta reportagem corrobora os resultados do estudo da APF e mostra “o rosto” de algumas das mulheres que já tiveram de recorrer à interrupção voluntária da gravidez.
http://www.kameraphoto.com/ [ página principal – últimas ]

 

 

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2 Responses to “Aborto”


  1. 1 Catarina Sousa Dezembro 14, 2006 às 9:18 pm

    A reportagem fotográfica está realmente muito boa. É o mundo das contrariedades…

  2. 2 Afonso Gaiolas Janeiro 27, 2007 às 10:29 pm

    Olá a todos,
    O ideal cívico compele-me a deixar-vos a minha opinião, velha de quase dois anos, mas à qual não retiro ou acrescento uma vírgula.

    Um abraço,
    Afonso Gaiolas

    Sexta-feira, Abril 22, 2005

    Referendo sobre o aborto, ou um aborto de referendo?

    Diz-se daqueles que, apesar de receberem contínuos sinais de recusa das fêmeas que tentam cortejar, apesar de engolirem mais sapos do que as margens da ribeira de Cobres albergam, se insinuam de tal forma insistentemente que a conquista do troféu se dá pelo cansaço, diz-se, dizia eu, que a façanha foi conseguida por “esmagamento”.
    Serve esta analogia para ilustrar o que me parece ser o pensamento de alguns sectores da nossa sociedade face à problemática do aborto em Portugal.
    Merece o assunto as controvérsias de proporções bíblicas que proporcionou nos últimos tempos?
    Tudo isso e muito mais.
    Penso, contudo, que muito se tem rematado, mas continuamente ao poste, poucas vezes se discutindo o que realmente interessa debater.
    Vou começar pela própria palavra ABORTO – Acto ou efeito de abortar. Nunca o dicionário refere a aniquilação de um ser como significado da palavra, mas ao invés, define-a como a expulsão do feto antes do fim da gestação, ou ainda “o que nasceu (começou a ter vida exterior) prematuramente”.
    Curiosa esta diferença conceptual de vida exterior e interior, tão curiosa que nalgumas comunidades que não a nossa, de desenvolvimento imaculado e mãos sempre limpas, se considera a contagem de ambos os períodos na idade das pessoas.
    Todos consideramos como o mais hediondo dos crimes a eliminação de um ser recém-nascido. Pois bem, construamos uma simples fita de tempo. No intervalo temporal D+x (sendo D o momento do nascimento e x qualquer período que escolhamos (1 mês, 1 ano, 10 anos, 100 anos, …), a palavra assassínio estará sempre presente, se decidirmos aniquilar um ser humano em qualquer destas idades. Mais complexa se torna a análise se trocarmos o sinal da adição pelo da subtracção. A partir de que momento consideramos estarem reunidas todas as condições para que, em consciência, possamos afirmar existir VIDA? Pensar demasiado sem conhecimento científico suficiente, torna angustiante a busca de respostas. Confesso que foi o que me aconteceu. Tanto mais que a proliferação de artigos sobre o tema em causa só torna ainda mais nebulosa a formação de uma opinião. Uma fracção de segundo, um dia, dez, doze, dezasseis semanas ou nove meses?
    Defendo que as leis de um país se devem reger pelos valores morais que os seus cidadãos consideram ser os correctos, nunca se devendo ceder à tentação de resolver um problema com outro problema. Não me serve portanto o argumento da falta de informação, da má qualidade das instituições de solidariedade social que prestam a educação a quem não pôde ser acolhido por uma família, da inconveniência temporal, ou qualquer outro de cariz similar.
    Em coerência devo portanto afirmar que, sendo o valor da vida o mais importante na escala das pertenças individuais, a partir do momento em que cientificamente me provarem que a centelha existe, devem ser repudiados todos os actos contrários ao seu desenvolvimento e maturação.
    Pois, pois, centelha é muito vago…
    Estava só a tentar ganhar tempo para que o meu cérebro me ajudasse…
    Disse cérebro?
    Se trocarmos um rim, continuamos a ser nós próprios?
    Concordam que sim!
    Se trocarmos de coração, continuamos a ser nós próprios?
    Concordam que sim!
    E se trocarmos de cérebro?
    Eu convictamente penso que não. Acredito aliás que a verdadeira fonte de longevidade para os seres humanos reside na substituição de “componentes”, preservando ao máximo o único insubstituível – o cérebro.
    Reside aqui portanto a resposta à minha pergunta.
    É verdade que no momento da concepção, potencialmente temos uma vida a ser gerada. Mas estamos ainda no domínio das células indiferenciadas, e a verdade é que, mexendo os cordelinhos certos, ou errados, conforme o ponto de vista, podemos gerar uma miríade de monstruosidades que com a vida nada têm em comum. Não considero portanto que os inúmeros bancos de embriões existentes pelo mundo sejam imorais, uma vez que a essência de cada ser individual ainda não existe – que o cérebro ainda não se formou.
    Parece ser cientificamente aceite que todos os principais componentes do cérebro são claramente distinguíveis praticamente cinco semanas após a concepção. Assim sendo, em nome da coerência, até essa data (ou qualquer outra mais precisa que cientificamente seja acreditada) não deveria ser criminalizada, penalizada, ou sequer moralmente condenável a decisão de inviabilizar a evolução do embrião. Dentro deste período, englobar-se-iam os casos excepcionais já previstos na nossa legislação, exceptuando claro o risco de vida para a mãe. Para a análise de malformações, ter-se-ia que fazer um esforço, grande, é certo, mas realizável se bem direccionado no sentido de, por análise genética, se determinar o mais precocemente possível a sanidade de cada futuro ser humano.
    Tendo tornado clara a minha posição, resta-me tecer um comentário, necessariamente cáustico ao slogan “A barriga é minha, faço dela o que quiser!”, e outras idiotices do mesmo calibre, que só tornam ridícula a posição de algumas mulheres, que pensam ser este o cavalo de batalha final contra a opressão masculina. É verdade que é o indivíduo do sexo feminino o veículo hospedeiro do novo ser que está a ser gerado, e que provavelmente é o acto mais nobre a que alguém poderá em toda a sua vida aspirar, mas isso não tira o direito e simultaneamente a responsabilidade do homem perante o seu filho. Deveríamos pois ver ambos os progenitores condenados pelo acto abortivo, se existisse o conhecimento da acção, mas pela mesma ordem de ideias, negar a unilateralidade materna na decisão de continuar, ou não, com o processo de gestação.
    Quanto aos direitos sobre a barriga, esses são inalienáveis (embora algumas devessem receber mais conselhos sobre estética), mas quando se trata da geração de um novo ser, ainda e sempre reaparece o velho, mas sábio conceito, que sumariamente nos lembra que a liberdade individual termina onde começa a liberdade de terceiros.
    Decidam em consciência!


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