O sangue dos outros

A crónica de Rodrigo Guedes de Carvalho da Única de 8 de Dezembro, intitulada “O Sangue dos Outros”, aborda a morte no jornalismo, incidindo sobre o valor-notícia da proximidade. Num texto meta-jornalístico, o cronista questiona as distintas formas como se noticiam as mortes de acordo com a proximidade ou identidade.

A questão de que “sangue de um dos nossos vale mais atenção do que muito sangue de muitos outros” tem sido discutida no mundo jornalístico (e não só), mas aqui surgem novas, inteligentes (e ingénuas diria, talvez ironicamente, o seu autor) perguntas: será que “o dos nossos” não poderá ser um “bom sacana” e “muitos dos outros” “amigável gente de bem”? “Uma morte horrível” não será “sempre uma morte horrível”?

Eis o texto:

 

“Claro que ainda me dói a memória dos jovens jornalistas despenhados no Chile. Ou o jovem alpinista perdido lá no alto. A estupidez de certas mortes. Destino canalha. Que sejam a honrosa e justificada excepção de uma regra que sempre me causou confusão em mais de 20 anos de jornalismo. Assim que soa a campainha de um telex de última hora, daqueles que anunciam desgraças longínquas, um comboio que descarrilou, um avião que falhou a aterragem, um sequestro que deu para o torto fatal, logo se levantam as cabeças na Redacção: e há portugueses? Se sim, começam telefonemas, procura-se detectar família que possa chorar em directo mais logo. Se não, encolhem-se ombros e volta-se à vidinha. Até está instituído um consensual humor negro. Desgraça em África ou na Ásia, só se trouxer mortos às centenas. Mas um simples acidente em França ou no Luxemburgo, com meia dúzia de falecidos ou feridos ligeiros, pode trepar para manchete se houver um vestígio de sangue português, ainda que seja do chamado luso-descendente. Pode nem arranhar a nossa língua, basta o bisavô materno ter emigrado de Cucujães com tenra idade. Quando comecei a trabalhar, espantado com estas distinções, elucidaram-me os chefes sobre o jornalismo de proximidade. Não é cá exclusivo do burgo, vejam-se as notícias pela Europa fora e Estados Unidos. Ainda que pequeno, sangue de um dos nossos vale mais atenção do que muito sangue de muitos dos outros. Às vezes ocorre-me, com aquela maçadora mania de questionar tudo, que bem pode acontecer que aquele descendente de portugueses que simplesmente se arranhou na Venezuela ou no Paquistão era conhecido por ser um bom sacana. E que, em contrapartida, aquela família nigeriana despedaçada inteira num massacre era amigável gente de bem. O jornalismo gosta de dizer que não faz distinções, mas esquece-se de admitir que a medida de uma notícia é por vezes um passaporte. Ingénuo, pensava eu que uma morte horrível é sempre uma morte horrível.”

 

*Joana Paixão Brás

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2 Responses to “O sangue dos outros”


  1. 1 Catarina Sousa Dezembro 12, 2006 às 10:52 am

    Também li a peça de Rodrigo Guedes de Carvalho e achei que se referiu a uma questão muito importante. Quantas vezes não damos conta que uma notícia é ou noticía (ou é mais notícia) porque morreram portugueses. Lembre-se o caso dos jornalistas do Record, da jornalista do DN e da directa da agência de comunicação. Será que a notícia da queda de um avião, no qual morreram quatro pessoas seria uma notícia se não as vítimas não fossem portuguesas? Penso que a resposta é óbvia: não.
    A proximidade e a identidade são sem dúvidas valores-notícia que marcam a nossa actualidade. A opinião do jornalista tem o seu “q” de perspicácia.

  2. 2 catarinasousa Dezembro 12, 2006 às 10:56 am

    Desculpem os erros que possam complicar a compreensão do comentário mas não o consegui apagar e voltar a escrever.


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