“Não caímos aqui de pára-quedas”

“Diz que não vai ter posição pública sobre o aborto, mas defende que a actual lei “é boa”. É contra a legalização da prostituição e contra as quotas, porque não se sentiria bem a ocupar um lugar apenas para “cumprir uma percentagem”. Eis Maria Cavaco Silva, sem tabus”

“O GABINETE AINDA ESTÁ TAL E qual a sua antecessora o deixou. Um tapete de Arraiolos m, meio remendado, uns sofás desbotados, de cor indefinida, e uma cortina pesada que não ajuda a deixar passar a luminosidade. Maria Cavaco Silva, 68 anos, bem desejaria renovar o espaço, a seu gosto. Mas o orçamento não dá para essas estravagâncias. A opção foi acrescentar elementos que ajudem a criar um ambiente mais personalizado: fotos da família, alguns quadros, um candeeiro e flores.

Durante quase duas horas, a primeira-dama, ou melhor, a mulher do Presidente, como prefere ser tratada, não se furtou a nenhuma pergunta. Na sua primeira entrevista desde que chegou a Belém, assume-se politicamente como sendo de centra-esquerda, solta uma gargalhada quando a qualificam de católica-conservadora e propõe-se a ser mais pró-activa do que reactiva, nas funções que vai desempenhar até ao final do mandato de Cavaco Silva.

Por agora, em vez de poemas, dedica-se a escrever os seus próprios discursos a lápis, em pequenas folhas que manda guardar religiosamente. Mas não abdica de continuar a receber os netos, ao fim de um dia de trabalho. Como aconteceu, depois de falar com a VISÃO.”

Estas são as palavras das jornalistas da VISÃO antes de transcreverem a entrevista realizada a Maria Cavaco Silva que foi tema de capa (semana de 7 a 13 de Dezembro), na qual a frase utilizada foi “Sou de centro esquerda”, por ser um facto que surge como novidade e que pode também ser um dado polémico. De frisar que é a primeira entrevista dada pela mulher do Presidente após a sua chegada a belém.

Resolvi destacar as respostas (excertos) mais polémicas e ricas em novidade, bem como as perguntas que as suscitaram:

VISÃO: É verdade que lhe chamavam Delgadinha por ter sido apoiante de Humberto Delgado?

Maria Cavaco Silva: [Gargalhada] Verdadíssima. (…) Eu era muito revolucionária e, quando Humberto Delgado se candidatou, houve um entusiasmo fantástico e eu embarquei muito na onda do entusiasmo. E como, fisicamente, era muito magrinha, os meus amigos da Faculdade de Letras começaram a chamar-me Delgadinha.

Se lhe pedissem para se definir politicamente, dir-se-ia de direita ou de esquerda?

[Pausa] Já fui de esquerda, quando era muito necessário. Agora, diria que sou de centro-esquerda.

Porque se define de centro-esquerda?

A esquerda corresponde mais a um ideal de pouca concretização. Com a direita não me identifico, porque, apesar de não ter partido, tomo atenção ao que eles vão dizendo e fazendo e não me identifico com os de direita. De maneira nenhuma. Também não me identifico com as posições de partidos completamente à esquerda. (…)

É interessante a forma como se define, porque há quem a considere uma católica conservadora. Sente-se confortável com esse fato?

Não sabia que diziam isso, mas té me dá vontade de rir. É um fato capaz de me ficar um bocadinho largo. Largo ou estreito, não sei. Agora há a tendência para se dizer que se a pessoa é católica, é logo conservadora. (…)

Alguma vez conseguiu que o seu marido mdasse de ideias em relação a uma política?

Não. Acho que corre essa ideia de que eu, às vezes, governo por interposta pessoa. É errada.

Gosta de Saramago?

Gosto. O Memorial do Convento é um romance extraordinário. Depois há outros de que já não gosto tanto. Mas, apra mim, o Memorial é um marco na Literatura Portuguesa. Agora, há toda uma comunicação através do SMS, portanto, estamos em plena mudança. Temos de esperar para ver.

Continua a escrever poemas?

Agora, tenho escrito mais discursos.

Há igualdade de oportunidades entre homem e mulher, em Portugal?

Agora, já acho. As pessoas dizem que a mulher tem de ser sempre melhor que o homem para chegar aos lugares…

Acha que as mulheres, por exemplo, não estão nas administrações das empresas porque não querm, ou porque não são consideradas socialmente disponíveis para essas funções?É que se não são consideradas socialmente disponíveis, tal quer dizer que a sociedade não as encara de uma forma igualitária.

Mas os homens e as mulheres não são iguais.

Em termos de igualdade de oportunidades não deveriam sê-lo?

Acho que as pessoas têm de fazer as suas escolhas. Quando querem, seguem as suas carreiras.

Concorda com a existência de quotas para a participação das mulheres na vida política?

Para cumprir uma percentagem? Não me sentiria bem.

O aborto está na agenda político-social. Qual a sua posição sobre o assunto?

Não vou ter posição pública. Digo-lhe apenas que temos uma boa lei.

E sobre a legalização da prostituição?

Sou contra.

Há alguém lá fora ou cá dentro que constitua um padrão ou uma referência para si?

Não me rejo por padrões. Eu sou aquilo que sou e as pessoas cumprem de acordo com a sua personalidade e trajecto de vida.

Estes pequenos excertos devem servir como estímulo para a leitura deste entrevista que está muito bem conseguida e orientada. Os temas principais e mais polémicos são distribuídos ao longo do diálogo não deixando esmorecer a curiosidade e o interesse do leitor.

As fotografias complementam de forma rigorosa e simples a entrevista, bem como as pequenas caixas com as principais citações.

Um bom exemplo de entrevista das jornalistas Áurea Sampaio e Sónia Sapage. Fotos de Gonçalo Rosa da Silva.

Ler na VISÃO da semana de 7 a 13 de Dezembro.

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