A depressão do Natal

“Há quem sinta tristeza na quadra festiva. Solução: ajustar a época à vontade própria

RUAS E ÁRVORES ILUMINADAS, montras recheadas de apelos ao consumo, centros comerciais apinhados e intensas trocas de telefonemas e correspondência. Estar com os outros e para os outros é um ritual quase obrigatório, que absorve os dias e a paciência de quem, como a personagem Scrooge, inventada por Charles Dickens, não lida bem com o espírito natalício. «Mal acaba o Verão, vêm-me logo à cabeça os planos da Consoada e a ditadura das prendas.» Soledade Magalhães, 34 anos, funcionária numa gráfica, já sente aquela angústia que se abate sobre ela como chuva miudinha, nesta fase de preparativos. Em casa, os filhos e o marido nem sempre compreendem as suas oscilações de humor, entre o rabugenta e o preocupada, até porque as finanças não estão para grandes aventuras. Este ano, Soledade quer ter um Natal bem diferente do pesadelo que viveu no ano passado, por esta altura. «Sentia-me muito cansada, saía do trabalho maldisposta, tive febre e fiquei com borbulhas pelo corpo todo. No dia 25 até fui ao hospital, mas as análises não acusaram nada.» A depressão de Natal, ou o estado melancólico que assola muitas mentes durante a quadra festiva, é comum. Acumula os dissabores de um ano que, no começo, se projectava promissor: perdas de familiares, crises existenciais (quebras psicológicas ou outras doenças, separações), problemas financeiros e expectativas frustradas. Nem sempre acompanhado de incómodos físicos, o estado de espírito cinzento traz condutas saudosistas – do tipo «quando eu era criança é que era bom». Ou formas de ser mais pessimistas e estranhas para os adeptos da noite de todas as festas.

PARA MARIA JOÃO MARTINS, 45 anos, o pior é a falta de tempo para celebrar o recolhimento familiar. «A vida de comerciante é isto – na véspera de Natal estou presa na loja até quase à noitinha e já vou em stresse para casa.» Divorciada e a viver sozinha por opção, admite que durante este período sente mais a ausência de um companheiro: «Fico um pouco nostálgica, sim.»

«A depressão de Natal é uma reacção a uma frustração», nota a psiquiatra Maria Antónia Frasquilho, 50 anos. No entender da médica, o problema instala-se quando se atribui um significado negativo à quadra, sem qualquer esforço para se adaptar a ela e daí tirar partido. O sofrimento a que muitos se agarram, condenando a febre consumista e a suposta hipocrisia reinante, não ajuda: «Dizer que o Natal é todos os dias também se revela uma ilusão e um pretexto para fugir ao convívio com os outros, que se encara como difícil.» Dar o seu próprio significado à época, reinventando a fórmula que melhor se ajusta a cada um, é a sugestão da clínica. Assim faz o consultor Manuel Dias, 53 anos. Desde a faculdade, desvaloriza a azáfama natalícia. Divorciado e com um filho maior de idade, ainda aderiu à tradição nos primeiros tempos de paternidade. Agora, cada ano é diferente: «Já me meti num avião e fui para um país quente. Já passei a Consoada sozinho, a ver um bom filme de aluguer. E já jantei com familiares.» Poucos presentes dá e recebe, mas não o olham como um Mister Scrooge. Antes irritava-se e deprimia-se – «até por causa do mau tempo». Hoje considera-se um homem pacificado com a «ilusão natalícia». Concluindo: o Natal é o que se faz dele.”

Clara Soares, in VISÃO, nº 718, semana de 7 a 13 de Dezembro de 2006

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