Boom Festival – Festival de drogas

Escolhi esta reportagem porque gostaria de finalizar a semana sobre os bons exemplos de reportagem com um caso polémico. Com efeito, há uma diferença entre a escrita correcta que responde a todas as exigências que a caracterizam, como as frases curtas, simples e apelativas, por exemplo; e o «ethos» jornalístico propriamente dito, que (infelizmente) não se pode analisar na simples leitura da reportagem, porque mais interior e subtil (e porque não esquecido?) ao olhar do leitor. Com isto quero dizer que o repórter Hugo Franco do Expresso revela-se um excelente profissional. A descrição é pormenorizada, o que possibilita o sentimento de identificação por parte do leitor. O número de personagens é vasto, o que propociona uma variedade de citações, que enriquecem a reportagem. É de notar igual cuidado na escolha de verbos no tempo presente e de adjectivos que conferem vivacidade e fluidez ao texto. O lead é bastante feliz, porque informativo e sugestivo, e o mesmo se passa com a conclusão, que é feita de modo a acabar em aberto, dando a ideia de que a estória pode continuar.

Apesar de todo este cuidado, é sabido que o jornalismo proporciona o relato altamente seleccionado da realidade. Assim, o campo jornalístico poderá ser considerado um campo de censura, dado o seu poder de selecção e construção de mundos informacionais. A reportagem é um género caracterizado pela liberdade e subjectividade na condução e construção da informação. Contudo, até onde vai essa liberdade? Será que é lícito que ultrapasse a veracidade dos factos, em favor da mensagem que o órgão de informação deseja passar? Mais concretamente, eu estive neste festival e acho, no mínimo, estranha a reportagem feita pelo Expresso, um jornal de referência, pretensamente de qualidade, equilibrado e exclarecedor – e não criador de mitos. O que o jornalista Hugo Franco fez foi uma reportagem manipulada desde início. Suspeito (e aqui o ambiente deste blog parece permitir-me fazê-lo) que a ideia de partida seria já fazer uma reportagem negativa sobre um espaço e uma culltura marginais à sociedade e ao conhecido (e logo controlado) pelos média. O Boom Festival é um espaço de lazer e partilha, onde podemos encontrar galerias de arte, colóquios variados, work-shops de meditação, reiki ou simples sensibilização para os problemas ambientais, um espaço para projecção de filmes e documentários, actividades para crianças com o devido acompanhamento, enfim.. a barragem de Idanha-a-Nova transforma-se completamente nestes 7 dias em cada dois anos. Os problemas exteriores da sociedade podem ser rejeitados e podemos ter a ideia do  nosso potencial enquanto indivíduos em busca de sabedoria e de realização pessoal. Ora, realização pessoal e droga são conceitos muito diferentes e distantes. Ambos existem e o jornalista escolheu um. Será, então, este um exemplo de uma reportagem rica e informativa? Com esta reflexão, faço um apelo à moral e ao discernimento de todo o jornalista que é considerado um bom profissional, imprescindível garante da democracia.

A reportagem encontra-se aqui: http://expresso.clix.pt/Actualidade/Interior.aspx?content_id=367535

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2 Responses to “Boom Festival – Festival de drogas”


  1. 1 Catarina Sousa Novembro 18, 2006 às 1:53 pm

    Compreendo o teu ponto de vista e, visto tratar-se de uma reportagem antiga resolvi também ler os artigos que lhe estavam anexados no site que indicaste.
    No entanto, nunca saberemos se era realmente intenção do jornalista fazer uma reportagem sobre este tema. Provavelmente deparou-se com este facto à chegada do festival, visto que a própria reportagem relata que estas pessoas se encontram à beira da estrada, a “três curvas” do festival. E sabemos que estes acontecimentos fazem notícia, ainda mais num caso flagrante como este. Nunca tinha ouvido falar do festival e, para quem nele participe e veja as coisas de outra coisa forma, deduzo que a reportagem possa ferir susceptibilidades.
    Um jornalista deve relatar factos e, pelo que li, não me parece que Hugo Franco tenha ultrapassado a veracidade dos mesmos. Talvez não tenha optado pela reportagem “positiva”, digamos assim. Contudo, sabemos que, hoje em dia, não são esse tipo de acontecimentos que mais suscitam a curiosidade do leitor.
    Como já referi, compreendo que para quem lá tenha estado a reportagem possa parecer um pouco tendenciosa. Na minha opinião, o jornalista limitou-se a alertar para uma situação algo escandalosa, que todos sabemos existir mas perante a qual resolvemos fechar os olhos.

  2. 2 Master Inutile Novembro 18, 2006 às 10:24 pm

    Vamos lá ser sinceros, o Boom Festival é um evento que recebe gente de todo o mundo e de todos os géneros. É um festival, ou seja, o tema principal é a música, neste caso o Trance. É verdade que há drogas, se legais ou ilegais isso já não sei, mas tb há troca de ideias, de opiniões. Ao fim e ao cabo o Boom surge como um abrigo onde fugimos ao frenético stress do quatidiano, onde nos vestimos e agimos como bem entendermos. Com ou sem drogas!

    Como se fosse preciso um festival de trance para haver droga! Meus senhores, a droga anda por todo o lado! Não sejam tendenciosos e fujam aos estereótipos!!! Por favor!!!

    Um grande bem haja 😉


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