Cores a mais

Ninguém dorme até às cinco da manhã no Bairro Alto. Lixo e «graffitis» põem moradores à beira do ataque de nervos

Todas as manhãs, a empregada de limpeza do prédio com paredes de mármore da Travessa dos Fiéis de Deus pega num «spray» e num pano e esfrega com cuidado os «graffitis» da noite anterior. O condomínio, construído há quatro anos, é o único do Bairro Alto que escapa à praga dos borrões. As paredes lisas ajudam, mas não chega. “Pagamos entre todos à senhora da limpeza e a um segurança que está de serviço 24 horas por dia. É a única maneira de ter o prédio limpo.”, explica Maria, 37 anos, que nem se queixa do barulho à noite: “Temos vidros duplos e acabamos por nos habituar”. A estilista Fátima Lopes está no bairro há mais de nove anos e já desistiu: “Gastei fortunas com tinta anti-«graffitis» e tratamentos que não resultam. Mandei pintar as paredes dezenas de vezes e no dia seguinte está tudo sujo outra vez. Ando a promover o bairro e quando trago aqui as pessoas tenho isto para mostrar”. “Não são pessoas do bairro que fazem isto. É essa malandragem que vem para qui à noite. Eu nem saio de casa a partir das oito”, resigna-se Luísa Seixas, que foi para ali com sete anos e com 74 não tem nenhuma vontade de sair: “As minhas filhas moram no Cacém, já me disseram par air para o pé delas, mas eu não quero. É que de dia isto é outra coisa”. As centenas de «graffitis» são o símbolo da guerra entre os dois bairros: o de dia – dos velhotes que fazem compras nas merceeiras e dos miúdos a brincar na rua – e o da noite – com milhares de jovens que invadem as ruas à procura de cerveja barata nos inúmeros bares. “Dois dias depois de ter sido eleito, o dr. Santana Lopes fechou-e o bar por causa das queixas do barulho. Uma senhora que morava aqui em frente era a principal impulsionadora. Dizia que eu era rica e que tinha de lhe dar um apartamento de duas assoalhadas aqui no bairro, mas longe do barulho. Fechei e agora as senhoras dizem-me todas adeus e chamam-me Fatinha”, ri-se Fátima Lopes. O problema é velho e sem solução à vista. Num inquérito recente, a Junta de Freguesia perguntou aos moradores quais eram os principais problemas que os afectavam. O barulho nocturno e a sujidade das ruas e das paredes foram as respostas. “Ninguém manda nisto, estamos por nós”, acusa Vítor Castro, dono de dois restaurantes e presidente da associação de comerciantes. “Há pessoas que compram mercearias e transformam aquilo em bares para vender cerveja a um euro. Têm instalações pequenas e os clientes vão para a rua beber. É um máná. E por causa de uns pagam todos. Depois da meia-noite os taxistas recusam-se a entrar aqui para virem buscar os clientes do meu restaurante. Temos – nós e os moradores – de encontrar soluções”. O advogado Miguel Freitas mudou-se há três anos para um palacete na Rua do Norte. Nas últimas eleições liderou uma lista independente, conseguiu 19 votos e um lugar na assembleia da freguesia. Um ano depois não conseguiu fazer aprovar nenhuma medida proposta. Mas ainda tem ilusões. “O bairro está à beira da ruptura. Tem um potencial turístico e económico imenso, mas temos de fazer alterações profundas. Reconstruir as casas, conseguir mais segurança, atrair uma clientela diferente, com mais qualidade e as pessoas mais velhas do bairro podem não conseguir acompanhar. Por isso opõem-se”. Veio do Restelo, adora o bairro, mas já conhece o seu lado mais negro: “Já acordei duas vezes com tiros”. “Haxixe?”. Encostado à parede do infantário Abel Varzim, o «dealer» nem repara nas mães que vão buscar os miúdos à escola e oferece droga a quem passa. O seu dia vai começar.

Rui Gustavo in Expresso, 11 de Novembro de 2006

Considero que temos aqui um exemplo de uma boa reportagem, onde o autor teve a habilidade e criatividade de jogar tanto com a sua subjectividade como com o cuidado na preparação da informação. No fundo, trata-se do contar de uma história, segundo um ângulo escolhido pelo jornalista que a investigou. Feita a investigação, o jornalista parte dos factos e constrói uma história onde intercala citações dos personagens que nela participam. Nota-se o uso do estilo directo, a maior parte das vezes no tempo presente, havendo referência a episódios concretos, abundância de adjectivos, imagens, pormenores e expressões. Tudo isto é contado de acordo com a subjectividade de quem conta, sem, contudo, a narrativa deixar de ser objectiva e verídica no que respeita aos factos e aos acontecimentos. O leitor sente que capata a informação em directo, sendo transportado para o terreno. Vemos um lead não muito claro, o que serve para criar suspense e interesse. Contudo, apesar do lead ser sobretudo sugestivo, as palavras-chave (ninguém dorme, Bairro Alto, lixo, graffitis) estão lá. A descrição é algo pormenorizada, o que permite ao leitor um sentimento de identificação. A fluidez é uma constante, o que cria a sensação de um continuum. O 3º parágrafo é o parágrafo de contexto. São entrevistados vários personagens, com pontos de vista diferentes. Daqui podem-se antever as horas que o jornalista ocupou com a execução desta reportagem, também porque não há tanta pressão da actualidade como na notícia. As citações são narrativas e longas, havendo assim marcas da oralidade. Estas servem para continuar a estória e dar vivacidade ao texto. Por fim, a reportagem acaba em aberto, dando a ideia de que a estória pode continuar. O último parágrafo é assim sugestivo e forte, para motivar a leitura até ao final revelador.

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2 Responses to “Cores a mais”


  1. 1 arnt Novembro 15, 2006 às 5:53 pm

    Olá!
    Ainda não me consegui juntar a este blog!
    Alguém me pode dar uma ajudinha?
    Obrigada***

  2. 2 anaq Novembro 16, 2006 às 4:54 pm

    Ao ler esta reportagem fiquei completamente clarificada sobre a real natureza do Bairro Alto(!) que é, como todos sabemos, algo contraditória comparativamente com muitas opiniões realçadas aqui.Relativamente à qualidade da reportagem penso que, de facto, está bastante bem conseguida, até porque descreve pormenorizadamente os acontecimentos, não se tratando então de “pseudo-acontecimentos” mas sim de verdadeiros acontecimentos. O jornalista tem uma especial preocupação em adoptar uma postura completamente objectiva quando o assunto em si suscita logo uma grande subjectividade…até porque toda a gente tem uma opinião acerca do Bairro Alto: ou é um Bairro em que só há “malandragem” a beber copos na rua, ou onde se passa droga de mão em mão, ou, ainda, onde se praticam as mais belas tradições lisboetas, como por exemplo as casas de fados.É de salientar, portanto, a desapropriação que o jornalista faz de si mesmo para se poder colocar, sim , na pele de alguém que simplesmente visa analisar a subjectividade dos outros, daqueles que entrevista.
    Contudo, não poderia deixar de referir que as citações, apesar de pertinentes, são bastante longas e cansativas para o leitor e à partida não é isso que se ambiciona quando se escreve uma reportagem.
    Apesar de apresentar esta pequena lacuna que, de certa forma, não é muito relevante para o grosso da própria reportagem, este é um bom exemplo de como se pode conseguir Bom Jornalismo, através da coerência, da objectividade, da concisão e do ser correcto.


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