Uma Grande Reportagem da jornalista Maria Augusta Casaca que vale a pena ouvir com toda a atenção…
Como lá chegar: www.tsf.pt (Arquivo Programas – Reportagem TSF – Ano 2006 – Haja Saúde).
Ana Maltez
Falta uma frase inteligente aqui
Uma Grande Reportagem da jornalista Maria Augusta Casaca que vale a pena ouvir com toda a atenção…
Como lá chegar: www.tsf.pt (Arquivo Programas – Reportagem TSF – Ano 2006 – Haja Saúde).
Ana Maltez
Diário de Notícias, 22 de Fevereiro de 2007
Secção Media
Por Ana Pago
Lançado ontem na Net pela Rádio Renascença, o “Página 1” assume-se como o primeiro jornal “online” do País concebido por uma emissora para adaptar ao papel os conteúdos radiofónicos. Duas edições diárias (às 12.30 e 17.30), formato pdf e critério tempo definem a essência da ideia.
No início era o som, a voz – vocação original da Rádio Renascença. Depois veio o texto e o vídeo, a reforçar a informação no site. E esta percepção de que “temos de ser cada vez mais multimédia”, segundo palavras do director de informação da Renasçenca, Francisco Sarsfiedl Cabral, a emissora lançou ontem na Net o jornal Página 1, inédito no País por adaptar ao suporte papel os conteúdos produzidos para a rádio.
“A ideia nasceu de uma reflexão interna da casa: sabendo qual a tendência noticiosa no estrangeiro, queríamos dar aos nossos ouvintes uma nova forma de ouvir/ler a mesma Renascença de sempre”, conta ao DN Pedro Leal, chefe de redacção da antena e o grande impulsionador do projecto. “Há que explorar todas as capacidades multimédia que o ciberjornalismo permite”.
Sem esquecer que o objectivo principal é a rádio, o Página 1 está disponível em www.rr.pt, com as principais notícias da actualidade compiladas em duas edições diárias (às 12.30 e 17.30). O formato pdf permite ao utilizador descarregar facilmente os conteúdos em papel, dando outros contornos ao conceito de “portabilidade” do breaking news.
“Ás horas de almoço e de saída dos empregos, a coincidir com ambas as edições do dia, qualquer pessoa pode imprimir o seu jornal para ler no caminho”, precisa Pedro Leal, satisfeito com o que considera ser um “passo pioneiro no sentido de casar o papel com a radiofonia”. A partir daqui, é só uma questão de acertar procedimentos e coordenar o Página 1 com o trabalho de redacção.
“Acreditamos que o projecto é útil para os utilizadores e marca uma etapa única no panorama radiofónico português, por ser o primeiro do género”, sustenta Sarsfield Cabral, preparado desde já para a adaptação linguística e estrutural que se segue. Enquanto director – cargo que divide com a adjunta Graça Franco –, acredita na coesão da equipa e no trabalho de Pedro Leal, Raquel Abecasis, Ângela Silva ou Aura Miguel, a acumular funções na rádio e no novo jornal. “O caminho do futuro é cada vez mais este”, justifica. “Não inventámos nada”.
Corrida(s) contra o tempo
Inspirado nos exemplos do Guardian (com o jornal G24) e do El País (24 Horas), o Página 1 insere-se na linha de projectos editoriais do grupo Renascença para este ano. A lógica, essa, é só uma: “As primeiras notícias a cair nas horas da edição são as primeiras a aparecer no jornal”, diz Pedro Leal, que aposta ainda nos exclusivos da rádio. O tempo e o imediato dominam, agora. Sinais de que o texto começa sempre por ser voz.
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Maria João Ganhitas
Rosa tem 16 anos acabados de fazer. Vive na Serra da Estrela, num dos Casais de Folgosinho, numa velha quinta arrendada pelo pai. O Casal da Maceira fica a 40 minutos, de jipe, de Folgosinho, uma pequena vila do concelho de Gouveia.
Rosa andou na escola de Folgosinho até aos 14 anos. Fez os 4 anos do primeiro ciclo em 8. Assim que completou a antiga quarta classe, os pais fizeram-na regressar ao vale da serra, transformando-a na principal, por ser a única, ajudante da família.
Os 8 anos de Rosa na escola foram, por isso, algo estratégicos. Tacitamente ter-se-á prolongado o tempo de permanência em nome da continuidade da ligação à escola.
Os pais, pela voz da mãe, há muito que definiram um princípio: “Se o mais velho (Raul de 32 anos) não quis continuar a estudar depois da quarta classe, os outros (Sandra, em parte incerta e com cerca de 20 anos, Rosa 16, Zé a completar 14 e a escassos 5 meses de deixar para sempre a escola) também não hão-de continuar”.
Definido o princípio, os filhos de Maria e de Manuel, puderam, portanto, completar o primeiro ciclo, por ser em Folgosinho, mas não tiveram ordem de passar para o segundo ciclo, em Gouveia.
Sandra conformou-se, encontrando outras formas de matar o tempo; Zé conformar-se-á, uma vez que o silêncio apático que lhe molda a personalidade não o irá deixar mover montanhas para perseguir um sonho; Rosa, menina do alto da serra, brava como as pedras, esforça-se por destruir o edifício de argumentos erguido pelos pais.
Há semanas fugiu do casal de bicicleta e passou uns dias em Folgosinho, numa casa que os pais construíram na terra a pensar na velhice.
Escassos dias antes dos 16 anos, apanhou boleia no táxi, que, diariamente, transporta o irmão para a escola de Folgosinho, e foi a Gouveia, falar com a presidente do Conselho Executivo da escola. Pediu-lhe para ser aceite.
A professora abriu-lhe as portas mas disse-lhe que só a poderia matricular se os pais acedessem. Falou com o pai, habitualmente mais aberto do que a mãe. Ouviu um não. A única palavra que, sobre esse assunto, a mãe diariamente lhe despeja na cara.
Rosa passa os dias a pensar na escola. Tem corpo e idade para pensar em rapazes. Aos estranhos só fala de rapazes.
A assistente social da Câmara Municipal de Gouveia, que fora uma vez ao Casal tentar convencer os pais a deixarem-na regressar à escola, voltou agora, curiosamente na semana que a SIC passou nos vales da serra. Ouviu, outra vez, o não de Maria.
Rosa ouve música. Passa horas ao telemóvel buscando uma rede inexistente, escrevendo mensagens que nunca envia. Sonha com o príncipe encantado que a leve para lá das muralhas da serra.
Tanto sonha que desespera.
É pastora de cabras; pastora de ovelhas; guia uma junta de bois; colhe o feno, o centeio e as batatas. Está farta da serra, imune à beleza que a paisagem transpira. Há um ano arranjou um confidente. Chama-se “pantufa”. O único que, pela ausência de resposta, lhe alimenta a dúvida: “Será que, algum dia, conseguirei sair daqui?” Pantufa diz “ão”, o que é mais de metade de um não.
Pedro Coelho (SIC)
http://sic.sapo.pt/online/noticias/sic+tv/reportagem+sicvisao/20070130
Esta é uma reportagem que irá para o ar na SIC no próximo fim-de-semana. O texto que a dá a conhecer deixa já antever a qualidade do trabalho.
Ana Catarina André
Uma das apostas mais recentes de O MIRANTE, jornal regional com as maiores circulação e tiragem do país, foi a criação de vídeos disponíveis no diário O MIRANTE online. Apesar de estar na fase inicial, o projecto parece ter pernas para andar (e para melhorar). É interessante.
(Consultar Arquivo Vídeos em www.omirante.pt )
Joana Paixão Brás
A reportagem de João Morais “O Petróleo é um Lugar Estranho” (TSF, 19 de Janeiro), com montagem e sonorização de Luís Borges, é um bom exemplo de jornalismo radiofónico. Apesar dos seus 39 minutos, é quase impossível cansarmo-nos destas histórias de S. Tomé.
Começa assim: “Tal como o mar calmo que se enrola suave na marginal e na Baía de Ana Chaves, também S. Tomé permanece tranquilo e quase parado no tempo. Como se tivessemos recuado 30 anos ou talvez mais. As marcas do passado exibem-se um pouco por todo o lado, as avenidas são largas e sem trânsito e as vivendas baixas e de traços coloniais mostram, em muitos casos, o ar de abandono. Aqui neste paraíso, o segundo país mais pequeno de África, com cerca de 150 mil habitantes, o passado ainda é presente.”
Ao longo da reportagem, vamos ouvindo vários habitantes da capital, S. Tomé, e de terras vizinhas. As dificuldades por que passam vão ganhando voz, ao mesmo tempo que vai sendo traçada uma descrição da situação do país. Vamos viajando pela ilha e ouvindo relatos das vivências daquelas gentes. Mário tem um computador portátil e vai para a marginal para apanhar o wireless do hotel e pôr-se em contacto com amigos distantes. Um italiano está em S. Tomé há seis anos para produzir cacau e conta as dificuldades nas comunicações internas para o Príncipe, nas comunicações telefónicas e aéreas: só há uma viagem por semana para a Europa. Um português, Fernando Mendes, emigrou para S. Tomé e não quer sair de lá. O primeiro ministro quer requalificar locais de S. Tomé e deseja o perdão das dívidas externas. Um cozinheiro saiu do anonimato através do programa “Na roça com os tachos” e é o “agitador” do país. Um médico ucraniano da AMI fala da única ONG de saúde fora da capital. Um professor da Universidade Nova de Lisboa tirou o doutoramento sobre a malária de S. Tomé. Uma professora entusiasmada com o primeiro ano de ensino universitário no país. Enfim… há uma variedade de entrevistados e os assuntos são muito bem interligados.
Apesar do petróleo não ser alvo de destaque permanente em toda a reportagem, acaba por fazer a ligação entre os elementos e histórias contados, seja pela falta de gasolina a um s.tomense, seja pela qualidade da estrada em que se deslocam. Os últimos cinco minutos são dedicados à questão do petróleo. Para tal, são compiladas opiniões dos anteriores entrevistados.
E termina assim: “Além da cana do açúcar e do cacau, há uma nova palavra que começa a fazer parte do vocabulário são-tomense.” De uma forma muito criativa surge, como resposta a esta questão, uma professora a ensinar a palavra “petróleo” aos seus alunos. Vale a pena ouvir.
Joana Paixão Brás
Idade: 21 anos
Profissão: Estudante
Naturalidade: Seia
Ricardo Duarte, o principal responsável pelo êxito financeiro da Queima das Fitas de 2006, chegou a Coimbra para cursar Jornalismo na Faculdade de Letras, com um passado de dirigente associativo na Escola Secundária de Seia. Nas últimas eleições para a Direcção-Geral da Associação Académica integrou a lista vencedora, liderada por Paulo Fernandes, pelo que se prepara para tomar posse como vice-presidente da instituição. Cargo que considera ser mais bem desempenhado face à experiência que adquiriu à frente da “Queima”. Aprendi rapidamente a tomar decisões importantes e caras, envolvendo muito dinheiro, pelo que obviamente, isso terá repercussões futuras, diz. Para já, vai poder continuar a sua experiência de gestão na administração da maior associação de estudantes do país. Ainda sobre a “Queima”, Ricardo defende que esta tem de dar lucro sempre, pois esse encaixe financeiro é crucial para a gestão da Associação Académica. Sobre o seu futuro, garante que a sua paixão sempre foi o jornalismo e quer vir a ter essa experiência profissional. Mas, após o sucesso da sua gestão na Queima, também não põe de parte uma carreira como gestor. Agora, importa também ter sucesso na Direcção-Geral, diz.
(artigo não assinado)
10/1/2007
in JN on-line – http://jn.sapo.pt/2007/01/10/centro/perfil_ricardo_jorge_costa_duarte.html
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Este é um exemplo de um perfil sucinto e interessante, pois foca o percurso de um jovem ilustre desconhecido, que está atrás da organização dos maiores eventos académicos a nível nacional. Apesar de curto, o artigo abrange os parâmetros necessários para a elaboração de um bom perfil, incluíndo citações e uma linguagem objectiva.
Ana Rita Nascimento
nº 16406
Ano novo, discussão velha, aliás a cair de podre, tanto pelo tempo que se prolonga como pelos argumentos bolorentos e campanhas pestilentas. Portugueses a favor do Aborto: sim ou não? Um coisa é certa a favor do circo montado em praça pública: sempre!
Esta peça está incluída na secção nacional e está de parabéns por, no meio das imensas peças sobre o aborto..escrever mais uma. Mas escreve-a com originalidade, uma boa fluidez narrativa, alías excelente ritmo, lida como quem vai seguindo uma história e dando sorrisinhos tipo”típico é mesmo isto” “pois é o país que temos”. Tem um pertinente humor, boa escolha de adjectivos e citações, muito ao jeito das caracteristicas do género de opinião.Lisboa 15.01.07
DN.pt – Nacional
“Vamos pedir ao Senhor pelas grávidas em perigo”
Pedro Correia
Leonardo Negrão (imagem)
Junto à estátua de D. José, o rei que expulsou os jesuítas de Portugal, algumas dezenas de católicos juntaram-se ontem de manhã para rezar o terço, atraindo as atenções dos raros turistas indiferentes à névoa fria que pairava sobre o Terreiro do Paço. Pastoreados pelo padre Dehoniano Macedo, pároco da igreja do Loreto, ao Chiado, intercalavam as rezas com cânticos ritmados em louvor à Virgem. Mais mulheres que homens, mais idosos que jovens, todos irmanados num propósito: “Alertar as consciências das pessoas para combater esse mal que é o aborto.” Palavras de uma paroquiana do padre Macedo, apostado neste conjunto de iniciativas “para dar mais visibilidade” ao combate ao aborto. A pensar no referendo de 11 de Fevereiro. “Começámos na noite de Natal e vamos prosseguir”, assegura o sacerdote, dizendo que a ideia partiu “de várias pessoas” que costumam escutá-lo na missa dominical.
Uma imagem da Senhora de Fátima foi colocada em destaque, na base da estátua de Machado de Castro, erigida no Terreiro do Paço a 12 de Outubro de 1833. Eram tempos funestos para os católicos portugueses: grassava a guerra civil entre absolutistas e liberais, no ano seguinte as ordens religiosas seriam expulsas do País. Mas o espectro da História não demovia o padre Macedo: “Decidimos vir para aqui por ser uma praça bonita, ampla e emblemática”, justifica ao DN, enquanto recebe saudações de várias mulheres que minutos antes haviam orado com ele – várias delas, pertencentes à Comunidade Emanuel, ajudaram a conferir mais vibração aos cânticos.
Mas esta não era uma celebração do terço como qualquer outra. Nas breves palavras que dirigiu aos fiéis, o padre Macedo não deixou lugar a dúvidas: aquela reunião matutina à beira-Tejo, desafiando o nevoeiro e a humidade de Janeiro, destinava-se a “defender a vida e os direitos de qualquer ser humano, nascido ou por nascer”.
Os católicos congregados na praça mandada construir por um ilustre maçon chamado Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, são activos militantes antiaborto. Para tornar este facto ainda mais notório, uma senhora distribuía folhetos com versículos da Bíblia. Com uma frase de Jeremias: “Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do ventre de tua mãe, Eu te consagrei.” E esta, extraída dos Salmos: “Na verdade, Tu me tiraste do seio materno; puseste-me em segurança ao peito de minha mãe. Pertenço-Te e desde o ventre materno; desde o seio de minha mãe, Tu és o meu Deus.”
Equilibrada a imagem sobre um manto votivo, duas guitarras ajudaram a soltar ainda mais as vozes: “Avé Maria, sê nosso refúgio / toma as nossas preces / e pede a Deus por nós.” Algumas mãos erguiam-se para os céus, outras seguravam nos rosários. Antes de ser rezado o terceiro mistério, ficou evidente o que ali atraía aqueles paroquianos do Loreto e outros templos de Lisboa. “Vamos pedir ao Senhor por todas as mães que estão em perigo e todas as grávidas que estão em perigo. Porque estão sozinhas, são maltratadas, e não sabem o que vão fazer aos filhos que têm e aos filhos que estão por nascer”, escutou-se no Terreiro do Paço, onde ontem os pombos pareciam tolhidos pelo frio.
O fruto das entranhas
Mais um cântico. Nos folhetos que circulavam de mão em mão, destacava-se uma frase de Isaías: “Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria.” E evocavam-se palavras de João Paulo II sobre o aborto: “Reivindicar o direito ao aborto e reconhecê-lo legalmente equivale a atribuir à liberdade humana um significado perverso e iníquo: o significado de um poder absoluto sobre os outros e contra os outros. Mas isto é a morte da verdadeira liberdade.”
O terço evoluía, entrava-se enfim no quinto e derradeiro mistério: “Vamos pedir a intercessão pelo futuro das nossas gentes, dos nossos jovens, das nossas crianças. Para que seja afastada da nossa sociedade qualquer ameaça de morte.”
Os cânticos surgiam mais ritmados, havia quem lesse outra citação dos Salmos: “Quando os meus ossos estavam a ser formados, e eu, em segredo, me desenvolvia, tecido nas profundezas da terra, nada disso Te era oculto. Os teus olhos viram-me em embrião. Tudo isso estava escrito no Teu livro.”
Logo após a Salve Rainha, cantada, o padre Macedo fez uma alusão inequívoca ao referendo. Para que não restassem dúvidas de qualquer espécie: “Até ao dia 11, vamos cada vez mais pedir a Nossa Senhora que nos dê o dom da vida.” Terminava a celebração com este apelo. E logo nas conversas informais que ali irromperam surgiram frases espontâneas em que era evidente a oposição geral daqueles católicos à despenalização do aborto.
Casais de turistas, curiosos, acercavam-se do grupo: as freiras ali presentes foram muito fotografadas, entre dois planos do arco da Rua Augusta. Passavam ciclistas, fardados a preceito para dar ao pedal. Um peruano tocava para ninguém ouvir no outro extremo da praça. Prestes a ser desmontada, a “maior árvore de Natal da Europa”, paga por uma instituição bancária, ainda foi a tempo de assistir a tudo isto.
Esta é uma peça do Diário de Noticias digital, já me repito no orgão mas faz parte da minha leitura diária e gosto das escolhas e escritas. Um amén ás minhas escolhas tendênciosas…e um bem haja ao Dn.
Ana Jerónimo
“Uma coisa é estar a beber uma cerveja numa esplanada na Praia do Tofo, em Inhambane, 525 quilómetros a norte de Maputo, desviar o olhar do enxame de coqueiros para o mar e ver, nitidamente, uma baleia-corcunda a passear-se à superfície. Bem diferente é avistar, numa só investida submarina, sete tubarões-baleia (o maior peixe do mundo – chega a atingir 15 metros de comprimento – e o Santo Graal dos mergulhadores) e, a espreguiçarem-se de barriga ao sol, no limiar da água, três dezenas de mantas, a mais imponente das raias.”
in Única 19/10/06
Também esta peça jornalística é do ano passado. Mas esta paisagem aqui descrita continua no mesmo sítio. Este “mundo” por descobrir que é África só está à espera da sua oportunidade para se dar a ver em todo o seu esplendor… Pronto não estou a ser isenta, sou suspeita para falar… porque trago em mim “sôdade”. Kanimambo (dialecto changane) significa obrigado. Este título não podia ser mais apropriado porque esta é uma reportagem que conta a história de alguns jovens portugueses que foram à procura de uma nova vida, aceitaram o desafio desta vida diferente, que é aquela vivida em África, e, hoje, não se arrependem. Encontraram uma nova casa e um novo modo de ser e de estar na vida. E porque também é “pelo sonho que vamos” é bom ler histórias com final feliz de pessoas de carne e osso.
“AS ESTAÇÕES do ano têm mais intensidade nas cidades universitárias. Há uma consciência aguda do tempo nesses lugares onde se está, definitivamente, de passagem. O resto da vida de cada um dos jovens estudantes que ali moram, temporariamente, dependerá daquilo que conseguirão aprender, descobrir, reinventar, nestes poucos anos. Os sonhos e angústias dos estudantes circulam no ar – a certas horas do dia ou da noite, parecem até visíveis, nuvens altas atravessando a transparência azul do céu, ou rajadas de vento inesperadamente frio. (…)”
por Inês Pedrosa in Única 14/10/06
Vão certamente estranhar a data do artigo que já têm três meses… Mas a explicação é simples, só hoje me decidi a “postar” e quis deixar aqui uma crónica que, de alguma maneira, nos toca a cada um de nós enquanto estudantes universitários prestes a terminar esta etapa da nossa vida. Soa a piegas… Bem relativamente a esta crónica sinto que nos transporta directamente para o universo estudantil, ainda que já não façamos parte dele ou ainda que não o tenhamos experienciado. É possível sentir a azáfama universitária, ver a diversidade de jovens ou pensar em todos os seus sonhos e medos, desejos e frustrações… Há aqui um poder de nos reportar para um sítio específico que mesmo não tendo sido vivenciado por nós se torna posível de ser experienciado através da imaginação.
“RTP recusou manter parceria com o PÚBLICO
Ao fim de mais de dez anos de parceria entre o PÚBLICO, a Universidade Católica, a RTP e a RDP para a realização de sondagens, a direcção de informação da RTP decidiu, unilateralmente, romper o acordo informal, mas de cavalheiros, que ligava estas diferentes instituições. Fê-lo de modo abrupto e num momento difícil de compreender, pois a ruptura foi comunicada ao PÚBLICO e à Universidade Católica já depois de termos realizado a primeira reunião de trabalho para planear o ano de 2007 e, em particular, os trabalhos relativos ao referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. Essa reunião decorreu, com toda a normalidade, a 23 de Novembro de 2006.
Contudo, sem que nada o fizesse prever, no dia 12 de Dezembro o director de informação da RTP, Luís Marinho, comunicou por e-mail ao director do PÚBLICO e informou a Universidade Católica que a televisão de serviço público não queria mais colaborar com este jornal. Motivos? Os expressos no primeiro parágrafo dessa missiva: “Nos últimos meses, depois das acusações proferidas por Eduardo Cintra Torres contra a Direcção de Informação da RTP, subscritas em parte por ti, verificou-se uma deterioração das relações entre o PÚBLICO e a RTP que não me parece facilmente reversível.”
Na verdade não ocorreu desde então, pelo menos da parte do PÚBLICO, qualquer deterioração das relações com a RTP. Mais: as acusações feitas por Eduardo Cintra Torres foram editadas neste jornal em Agosto de 2006 e, em Outubro, o PÚBLICO, a RTP e a RDP voltaram a juntar-se para trabalhar com a Universidade Católica numa sondagem. Depois disso não houve, da minha parte ou do jornal enquanto instituição, qualquer nova referência à RTP ou aos seus critérios editoriais ou empresariais. Pelo contrário: o PÚBLICO mantém, numa parceria que também envolve a Rádio Renascença, um programa de entrevistas na 2: que os serviços informativos da RTP por vezes citam, reproduzindo algumas passagens, e o PÚBLICO mantém com a RTP acordos empresariais benéficos para ambas as partes.
O único evento de relevo ocorrido entre a reunião de 23 de Novembro e a missiva de 12 de Dezembro foi a divulgação da deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, ERC, sobre o texto publicado em Agosto por Eduardo Cintra Torres. Quem quer que tenha na ocasião lido o PÚBLICO pode verificar que este jornal reagiu de forma indignada e dura, mas que os textos visaram os poderes da ERC e o conteúdo da deliberação no que a este jornal dizia respeito, nunca se referindo a Direcção de Informação da RTP. Terão sido as críticas do PÚBLICO à forma como a ERC entendeu condenar um seu colunista e o seu director que levaram à citada “deterioração das relações”? Se foram, caberá à direcção de informação da RTP explicar porquê.
Não se perca, contudo, o sentido do essencial. E o que neste caso importa é que existia, há mais de uma década, uma relação institucional estável entre o PÚBLICO, a RTP, a RDP e a Universidade Católica. Nesse período sempre representei o PÚBLICO nas reuniões de trabalho, onde fui conhecendo os membros ou representantes de sucessivas direcções de informação da RTP. Correndo o risco de falhar alguma alteração nas suas muitas mudanças de chefia, sucederam-se nestes dez anos à frente da RTP direcções personificadas por Joaquim Furtado, Fernanda Mestrinho, José Rodrigues dos Santos, Emídio Rangel, de novo José Rodrigues dos Santos e, por fim, Luís Marinho. Ocorreram também mudanças de governo e de ministros da tutela, mas nem elas impediram, ou estimularam, que o PÚBLICO editasse inúmeros textos, de opinião ou editoriais, fortemente críticos da RTP. Da mesma forma o PÚBLICO e eu próprio fomos muitas vezes criticados em programas da RTP, o que sempre foi entendido, nesta casa, como sendo normal e até saudável.
Tal como escrevi na missiva que enviei a Luís Marinho e da qual enviei cópias aos administradores da RTP e ao seu provedor, “a minha cultura democrática permite separar as instituições das pessoas, tal como me permite divergir das opções e dos comportamentos daqueles com quem trabalho sem que para isso tenha de engolir em seco, antes tornando claros os meus pontos de vista”. Mais: “A minha cultura de cidadania obriga-me, em contrapartida, a ser mais exigente e vigilante relativamente ao operador de televisão que é financiado por taxas e impostos pagas pelos cidadãos. Ao mesmo tempo que, sendo possível, porque acredito que todo o bom jornalismo é serviço público, tal como creio que o jornal que dirijo tem (…) feito muito pela qualidade da informação e pelo nível do debate público, acredito que a nossa colaboração com os operadores de capital público é um contributo positivo para a qualidade dos mesmos, logo, passe a imodéstia, outra forma de servirmos a comunidade. Verifico porém que esta forma de estar na vida e na profissão não é partilhada por todos.”
Porém, nem sequer os esforços dos responsáveis da Universidade Católica e do seu Centro de Sondagens para manter a parceria tiveram qualquer eco. Forças mais altas se terão levantado e a RTP preferiu deixar de trabalhar com o jornal que um estudo académico recente (Fernando Vasco Moreira Ribeiro, Faculdade de Letras da Universidade do Porto) mostrou ser aquele que, precisamente nestes últimos dez anos e apesar das mudanças de governo, sempre demonstrou maior independência e menor dependência de fontes governamentais ou oficiais. São escolhas que falam por quem as faz.
Face à situação criada, e não fazendo o PÚBLICO parte de qualquer grupo de comunicação social, regressámos, de alguma forma, às origens. Voltamos a trabalhar com a TVI, como já fizemos no passado e junto de quem encontrámos de novo, agora através do seu director-geral, José Eduardo Moniz, a maior receptividade para o estabelecimento de uma parceria que também engloba o renovado Rádio Clube. Deixamos de trabalhar com a Universidade Católica, por cujo rigor mantemos todo o apreço, e passamos a trabalhar com a Intercampus, uma empresa de créditos firmados no sector dos trabalhos de campo para recolha e tratamento da informação e com uma dimensão que lhe permite assegurar qualidade e fiabilidade, como têm comprovado as boas previsões que fez em anteriores eleições.”
José Manuel Fernandes, in Público, 12 de Janeiro de 2007
Vale MESMO a pena ler…TUDO!
Ana Maltez
O programa da RTP Prós e Contras de 8 de Janeiro teve como tema «O estado da juventude em Portugal.» Um debate interessante e dinâmico entre Daniel Sampaio – médico, Barata Moura – professor universitário, Carla Cruz Mouro – presidente do conselho nacional da juventude, Sam The Kid – músico e os jovens da plateia.
mms://195.245.176.20/rtpfiles/videos/auto/proscontras/pros_1_08012007.wmv [1ª parte]
mms://195.245.176.20/rtpfiles/videos/auto/proscontras/pros_2_08012007.wmv [2ª parte]
“Cada vez que o Estado financiar 2,3 abortos está a não pagar, a adiar ou a excluir uma operação. “Estas palavras – todas elas e exactamente alinhadas deste modo – foram proferidas pelo social – democrata António Borges que com este argumento apelou a semana passada ao “não” no referendo de 11 de Fevereiro.
Li e reli a frase. Ponderei no seu sentido. E finalmente cheguei à conclusão de que me falta a capacidade intelectual para perceber o argumento. Não o entendo! Por que não dizer que de cada vez que o Estado paga uma operação aos olhos, quatro pessoas deixam de poder ser operadas à vesícula? Ou que, por cada operação ao coração, ficam dois rins por “reparar”?
Quando já faltam poucas semanas para o referendo à despenalização do aborto, é triste assitir a uma troca de argumentos que já nada têm que ver com o que está verdadeiramente em causa. No lado do “não” atiram-se os impostos para cima da mesa. Como se fosse o dinheiro o critério de decisão. Mas pior! Do outro lado da barricada houve quem respondesse dentro da mesma linha de argumentação. Ou dito de outra forma, mordeu o isco.
Se é de números que falamos, então vamos a eles. A cada seis minutos, morre uma mulher vítima de um aborto clandestino, feito em más condições. Não sei quanto custa a vida de uma mulher. Não consultei as tabelas que determinam, em caso de desgraça, quanto vale uma mão direita e uma esquerda, um olho e um dente. Uma vida.
E se é de estatísticas que querem, aqui estão elas. Na Roménia em 1966 o aborto legal foi restringido e a taxa de mortalidade de mulheres grávidas causada por abortos clandestinos aumentou dramaticamente, tornando-se dez vezes mais alta que no resto da Europa. Em 1989 o aborto foi de novo legalizado quando pedido pela mulher e a taxa de mortalidade de mulheres grávidas diminuiu drasticamente. Em contraste, a Holanda tem a taxa de aborto declarado mais baixa da Europa porque tem leis não restritivas ao aborto, leis estas, inseridas numa estrutura que inclui: educação sexual universal nas escolas, serviços de planeamento familiar de acesso fácil e fornecimento de contracepção de emergência. Às mulheres talvez seja agora, finalmente, concedido o direito fundamental à sua própria decisão e à sua integridade psíquica ( incluindo durante o período de gravidez).
O que está em cima da mesa, não é um disputa entre a direitta e a esquerda, entre quem tem dinheiro e pode, se necessário, deslocar-se a uma clínica no estrangeiro e fazer um aborto e quem não pode reclamar de uma intervenção mal feita. Muito menos é uma contenda entre os que defendem a vida e os outros. O que está aqui em causa é tentar resolver um problema que existe. E que infelizmente mata. Fisicamente umas vezes, psiquicamente tantas outras.
Rui Pedro Batista, in Metro, 8 de Janeiro de 2007
Escolhi este artigo por me parecer ser um bom exemplo de como se deve escrever uma opinião. É de salientar que, grosso modo, todo o artigo obedece a todas as regras de escrita do género: aparece sobre a rubrica de “ponto de vista” e o nome do jornalista aparece destacado, o que pressupõe logo que a visão do jornalista é importante; o tema é um tema central da actualidade e que merece, pois, especial atenção para alguns artigos de opinião. Todo o artigo nos remete para um ponto de vista de quem o escreve como podemos ver em expressões como ” é triste” e ” Mas pior!”, acompanhados de alguma ironia à mistura; é precisamente isso que diferencia um artigo de opinião de um artigo de análise, por exemplo, em que o jornalista se limitaria a expor dados relevantes sobre o aborto e fazer um interligação entre eles. O que verificamos aqui é precisamente o oposto, na medida em que conseguimos extrair daqui o seu juízo de valor e a partir daí formármos o nosso próprio pensamento. Parece-me que é um bom exemplo de como de faz bom Jornalismo.
Ana Cristina Queimado
O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, foi o entrevistado de Judite de Sousa no programa «Grande Entrevista» de 4 de Janeiro.
É uma entrevista que, a meu entender, não acrescenta nada de novo, mas que permite fazer um balanço aos dez anos da presidência de Jorge Sampaio, nove meses após a sua saída de Belém. Sampaio fala do que mudou na sua vida privada, da relação que mantém com o actual Presidente da República e com o Primeiro-Ministro, do momento de transição que Portugal vive actualmente e de 2006 como um ano de revelações.
Como seria de esperar são abordadas as questões mais polémicas dos seus dez anos de mandato: a ida de Durão Barroso para a Presidência da Comissão Europeia; a nomeação de Pedro Santana Lopes para Primeiro-Ministro e a posterior dissolução do seu Governo; a maioria absoluta do PS; o Processo Casa Pia e a controvérsia em torno do antigo Procurador-geral da República, Souto Moura.
Nesta entrevista Sampaio coíbe-se de emitir opiniões sobre a forma como o país está a ser dirigido e, em resposta a Judite de Sousa, garante que não se voltará a candidatar à Presidência da República.
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Numa altura em que muito se fala sobre a percentagem que os jogadores profissionais de futebol devem descontar para o IRS, surge uma coluna na Revista Dez, do Record, em que João Marcelino, director do Correio da Manhã, critica severamente a posição de Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores. Apesar do tom corrosivo ser, na minha opinião, excessivo, o jornalista acaba por abordar, de uma forma directa, o outro lado da profissão, isto é, sem a encarar como a galinha de ovos de ouro. A coluna é polémica e pode ser encarada como um contributo importante para a discussão sobre o tema.
”Eu acho que os futebolistas devem descontar para o IRS a 100% e não aceito nenhum dos argumentos do Sindicato dos Jogadores, replicados pela corporação e por outros que por lá passaram, e que aliás considero absolutamente hipócritas sempre que não são apenas destituídos por inteligência.
Primeiro, a tese da profissão de desgaste rápido. Por favor, poupem-me! Profissão de desgaste rápido é a dos mineiros. Esses homens, sim, saem das entranhas da terra com doenças que os levam dali para a morte, precoce, ou para uma vida sem qualidade. Os futebolistas, aos 30 e poucos anos, apenas deixam de ser atletas de alta competição. Continuam a ser pessoas, felizmente com saúde, e estão em muito boa idade para entrarem no mercado de trabalho. Para isso, aliás, ficam até com acrescidas possibilidades de êxito, uma vez que não só podem continuar ligados à indústria noutras posições (treinador, secretário-técnico, dirigente, empresário etc.) como estabelecem contactos sociais importantes no sentido de virem a fazer carreira nos negócios ou mesmo arranjarem um emprego (que é sempre uma boa maneira, e digna, de ganhar a vida). Felizmente, há inúmeros bons exemplos que podem ser apontados neste sentido.
Depois, e porque nestas alturas, bondosamente, os chamados “craques” se lembram de invocar os seus irmãos desprotegidos como o Marco, eu cito palavras do presidente do Sindicato, Joaquim Evangelista. Diz ele: “Num universo de 32 clubes da Liga, e de centenas de clubes das divisões inferiores, apenas cinco por cento dos futebolistas ganham muito dinheiro. Outros, que deixam de estudar para tentarem ser como os Cristianos Ronaldos, têm carreiras de dez anos e, no final, não têm preparação para outras profissões”.
Ao contrário do que pretenderia Evangelista, este é o argumento que me faltava. Eu explico: os ricos (jogadores) podem e devem pagar – penso que estamos todos de acordo, até ele. Aliás, a lei 32-B/2002 já dispunha, desde 2003, o incremento anual de 10% sobre o rendimento colectável como transição do regime de pagamento de 60% do IRS para os 100% em 2007. (A questão, se virmos bem, é saber se os clubes e atletas têm estado, ou não, a cumprir esta lei…).
Os outros futebolistas, aqueles que são tentados por uma arte para a qual não têm manifestamente capacidade (muitas vezes empurrados pelo apoio ganancioso e criminoso dos pais, que os autorizam a faltar à escola e a descurar o futuro), só terão a agradecer a todas as leis rigorosas que lhes façam equacionar o perigo de apostarem numa única actividade, ainda por cima datada em termos biológicos. O futebol deve deixar de ser pasto para indolentes que se encostam ao jogo da bola e passam dez anos da vida sem se preocuparem com o seu futuro e o das respectivas famílias. Pode jogar-se futebol e, ao mesmo tempo, acautelar uma futura via profissional. Há muito tempo para isso entre os treinos e os jogos. A tese contrária é indefensável e socialmente inaceitável.
Se a aplicação de um quadro legal justo, por igual para todos, afastar da profissão alguns pernas de pau sem as mínimas condições para ganharem a vida a jogar futebol, óptimo. Se esta legislação servir para ajudar esses mesmos rapazes a pensarem duas vezes antes de se atirarem à bola e requalificar o papel das respectivas famílias, melhor ainda.
O futebol é uma actividade de risco apenas e só na medida em que o são todas as outras. Por que é que a lei haveria de discriminar positivamente os rapazes que optam por prolongar a juventude pelos relvados adentro e teria de esquecer os que gostam de fazer esqui, de jogar golfe ou bowling, de serem artistas de circo ou dedicarem-se à música? Alguém me explica?”
Joana Paixão Brás
Peça que mesmo não sendo um exemplo de jornalismo de qualidade e de escrita perfeita é um exemplo do espírito que se deve ter não só no natal…de perguntar, de pesquisar, de olhar curiosidades e de ver factos, de brincar com as palavras e as coisas, de ter a idade dos porquês mais estranhos em certos momentos, de usar um toque de humor bom e q.b, de contar harmoniosamente histórias…porque o natal é um dia de pequenas histórias.
Peça que pode não ser o melhor exemplo de bom jornalismo, mas sabe bem partilhar aqui.
E o natal também é partilha!
Dn.pt
Dn Tema 24- 12-06
Rute Araújo
Oito perguntas e mitos sobre o dia de Natal
Rute Araújo
Quando é realmente noite de Natal?
É como festejar o aniversário de alguém no dia errado, no mês errado e nem sequer acertar na idade do aniversariante. Sempre que o Ocidente cristão se senta à mesa, na consoada, para celebrar o nascimento do Menino Jesus, é isso que acontece. Ninguém sabe exactamente quando Cristo nasceu, há muitas datas possíveis, mas certo é que não foi a 25 de Dezembro.
“Pensa-se que terá sido em Setembro, porque foi durante um recenseamento e houve um naquele mês. Agora, a data exacta não se conhece”, explica o sociólogo das religiões Moisés Espírito-Santo. Não se sabe e, até ao século V, não era importante. “O que era celebrado era a aparição do Menino aos de fora, aos não judeus, o dia da epifania, que é a 6 de Janeiro”. Foram os romanos que mudaram o calendário das celebrações. “A data de 25 de Dezembro apareceu para cobrir uma festa pagã muito popular em todo o Império, o culto do Sol, no solstício de Inverno”. Festa com festa se paga e Constantino, o primeiro imperador cristão, sabia o que fazia quando decidiu trocar as voltas ao povo, dando origem a uma das celebrações mais importantes de hoje. Quanto ao dia do nascimento, por mais que se cruzem dados, não ficaram muitas pistas que permitam encontrar a resposta. “Naquele tempo, a idade tinha muito pouco valor. As pessoas podiam viver e morrer sem saber quantos anos tinham.” Jesus Cristo tinha 33, mas terá morrido mesmo no ano 33 depois de Cristo? Se o dia e o mês do nascimento são um quebra-cabeças, já o ano é consensualmente errado. Cristo nasceu antes de Cristo. Seis anos. E só um erro no calendário explica o sucedido. Se quiser decorar o bolo-rei com velas, não se engane. Compre 2012.
Os astrónomos de hoje acumulam o conhecimento de muitos séculos a olhar para os céus, e já viram um pouco de tudo. Mas a descrição que o Evangelho de Mateus faz da Estrela de Belém não bate certo com nenhum fenómeno astronómico conhecido. Não era um pássaro. Não era avião. O que apareceu nos céus aos reis magos podia ser muita coisa, mas também não era uma estrela. A melhor tradução para o texto sagrado seria astro, a palavra única dos romanos para algo que está para lá da Terra. “Cientificamente, nunca saberemos o que foi, não temos dados para fazer uma reconstituição fiel”, afirma o astrofísico Rui Agostinho. Este episódio apenas é descrito numa passagem breve de um dos evangelhos, e “o texto é parco em detalhes e conhecimento científico”. Do que se lê, percebe-se que a descrição do movimento da Estrela de Belém “não é como o movimento diurno que um astro normalmente tem”. Surgiu no Ocidente, desapareceu, voltou a surgir. E parou sobre o estábulo onde Jesus tinha nascido. “Ora, nos céus, não há nada que possa parar.” Além disso, lembra Rui Agostinho, “não foi um fenómeno deslumbrante, porque não chamou a atenção do povo judeu. Quando questionado sobre se viu a Estrela, Herodes responde: “Nós aqui não vimos nada”. O que mostra que passou despercebido, não teve um forte impacto visual. O astrofísico diz que há apenas uma explicação possível, mas é “muito muito remota”. Acontece quando Júpiter e Vénus passam ao pé um do outro, alinhados na vertical, dando a ilusão de um objecto luminoso. Chama-se conjunção tripla de planetas e é quase tão rara que pode ser mitológica. Como a Estrela de Belém.
É possível uma virgem engravidar?
O assunto é do domínio da fé, mas a ciência não o contraria. A doutrina cristã diz que Jesus foi concebido no útero da sua mãe, sem que tenha havido qualquer contacto com um pai humano. À luz das leis do mundo animal, é possível a uma fêmea conceber sozinha um filho? Sim, pelo menos teoricamente. E não seria inédito.
O fenómeno ocorre em várias espécies, dos lagartos aos peixes, e já foi verificado também em ratinhos. Chama-se partenogénese, uma palavra que vem do grego e significa precisamente parto virgem. Desenvolve-se um embrião, sem que tenha ocorrido fertilização do óvulo, em animais que, por estratégia de sobrevivência ou adversidade do meio ambiente, evoluíram para uma reprodução assexuada.
Mário de Sousa, especialista em genética e medicina de reprodução, explica que, no ser humano, “também é teoricamente possível, mas não existe nenhum caso descrito nem sequer previsão do risco de algo do género acontecer”. Diz o especialista que a mulher pode ovular e o ovócito pode dividir-se e tornar-se maduro sem que tenha havido contacto com espermatozóides. As leis da vida não o impedem. Neste ponto, ciência e religião estão de acordo. Mas o mesmo não acontece com o resultado final de uma gravidez nestes moldes.
No livro sagrado, Jesus nasceu da Virgem Maria e é homem. No livro da ciência, Jesus podia nascer da Virgem Maria, mas seria sempre mulher. Sem pai, não há cromossoma Y a cruzar-se com os cromossomas X femininos, nem forma de uma criança nascer do sexo masculino.
Pode o Pai Natal entregar numa só noite todos os presentes?
Se o seu filho lhe perguntar como é que o Pai Natal percorre o mundo inteiro numa noite, o melhor é pôr de parte as explicações científicas. Desde 1850 que os especialistas tentam embrulhar o mito numa fórmula científica realista. Os cálculos realizados mostram aquilo que todos intuem: o Pai Natal não tem uma vida fácil. A começar pela carga que transporta no seu trenó, qualquer coisa como 400 mil toneladas de presentes, na melhor das hipóteses. Como cada rena consegue apenas carregar 150 quilos, precisaria de 360 mil se quisesse manter a tradição e não recorrer a motores supersónicos. Além do peso, enfrenta o problema do tempo. Como apenas conta com as horas de sono das crianças, restam-lhe 31 horas para completar o serviço, beneficiando da ajuda dos fusos horários e da rotação da Terra. Divididas as horas por todos aqueles que esperam receber presentes a 25 de Dezembro – existem dois mil milhões de crianças, mas só 108 milhões de lares estão à sua espera – o velhinho de barbas teria de fazer perto de mil visitas por segundo. O que lhe dá apenas 715 microssegundos para estacionar o trenó, descer pela chaminé, deixar os presentes, comer alguma coisa que lhe tenham deixado, voltar a subir a chaminé, entrar no trenó e seguir para a próxima casa. Para que não haja atrasos, teria de deslocar-se a uma velocidade de 1046 quilómetros por segundo, mais ou menos três mil vezes a velocidade do som. As consequências da energia gerada por tamanha velocidade são inimagináveis. Mas não será difícil perceber que o transformariam e às suas renas em carvão. Por isso, se o seu filho lhe perguntar, deixe a ciência de lado.
Quantos quilómetros viaja o bacalhau para chegar ao seu prato?
Exactamente 2730,86 quilómetros em linha recta, a distância que separa a capital da Noruega, de onde vem a maioria do bacalhau consumido, da capital de Portugal. Mas o bacalhau não chega assim tão facilmente à sua mesa, percorre mais quilómetros, normalmente fica retido em Ílhavo, onde estão as fábricas que o transformam no peixe seco e salgado que se vende nos supermercados. Todos os anos, são importadas cerca de 8o mil toneladas, já chegaram a ser mais de cem mil. Cada português come, em média, oito a nove quilos.
Mesmo assim, não tome o bacalhau que lhe chega todos os Natais ao prato como algo adquirido. Há mais de uma década que o peixe que se tornou prato tradicional anda a lutar pela sobrevivência. E mesmo com os limites impostos à captura, não recuperou da pesca intensiva das últimas décadas.
É que não se trata de uma espécie de fácil reprodução. O bacalhau atinge a idade adulta aos quatro anos, mas só a partir dos seis a fêmea chega à maturidade reprodutiva. Cada uma produz milhões de ovos em cada ano, mas apenas um em cada milhão sobrevive até à idade adulta. Há registo de peixes capturados com 27 anos, mas são a excepção. Hoje, tem um carimbo que lhe confere a categoria de “espécie vulnerável”. E muitos acreditam que só conseguirá voltar aos stocks de outros tempos se deixar mesmo de ser pescado. Os mares da Terra Nova, no Canadá, são o motivo de maior preocupação. Se estiver preocupado e não conseguir imaginar um Natal sem bacalhau, o melhor é apostar no peru. Pelo menos, até que os mares do norte se encham novamente de peixes.
Porque é que, nesta altura, há uma árvore de Natal na sua sala?
Diz-se que foi escolhido por ser a árvore verde que se destaca na imensidão da neve, a única que não perde as folhas por mais frio que seja o Inverno. Mas a tradição do pinheiro rapidamente viajou para os locais onde não há neve, não há frio e o verde é a cor predominante na paisagem de Natal. Impôs-se a tradição, nascida do cruzamento entre do católico e o pagão, e exportou-se a ideia para o mundo.
A lenda diz que, 800 anos depois de Cristo, São Bonifácio encontrou, na Alemanha, um grupo de pagãos a adorar uma árvore. Enfurecido, decidiu cortá-la e, do tronco decepado, nasceu um novo pinheiro. Aos olhos de Bonifácio, foi o sinal de que aquela terra de pagãos seria semeada pela fé de Cristo. A forma triangular do pinheiro encaixou na perfeição na simbologia cristã, com os três pontos a representar a Santíssima Trindade. Foi o início da tradição natalícia. No século XVI, os primeiros pinheiros enfeitados foram transportados para o interior das casas. A estrela, as velas e as luzes, tudo foi acrescentado a pensar na celebração do nascimento e da vida.
Mas não faltam lendas e histórias sobre árvores enfeitadas, muitas delas sem ligação à época natalícia. Na Idade Média, quem acreditava que as árvores tinham os seus espíritos, enfeitava-as logo que as primeiras folhas começavam a cair no Outono, para que eles não partissem em debandada. Os romanos celebravam o solstício de Inverno enfeitando as casas com plantas verdes, cujos ramos ofereciam em Janeiro. Os egípcios prestavam culto a tudo o que nascesse verde. Com ou sem Natal, a árvore representa a natureza e o triunfo da vida sobre a morte.
Alguma vez temos realmente uma noite feliz?
Não é possível fingir que ele não existe. Está em cada rua enfeitada, nas músicas dos elevadores, é motivo de conversas, notícia nos jornais, pretexto para mensagens de telefone e e-mails de boas-festas. Mesmo querendo, ninguém consegue fugir ao Natal. “Há um esforço quase mundial para que seja um dia feliz. O movimento da sociedade é de tal forma poderoso que é impossível ficar imune. Não se consegue não assumir uma posição, nem que seja de oposição ou indiferença”, diz a psicóloga Gabriela Moita.
O problema é que quem imaginou o Natal, imaginou-o feliz. E quando a realidade não se adequa às expectativas? “Para muita gente é o momento de maior infelicidade do ano”, porque não há forma de o mundo encaixar no que se imaginou para a época.
Os consultórios dos psicólogos e psiquiatras enchem-se nesta altura. “Em Novembro, já começam as dores de cabeça. Chega-nos muita gente com sintomatologia depressiva ou de ansiedade, porque antecipam a obrigação de estar num contexto familiar que lhes é muito agressivo”, porque têm que fazer escolhas sobre onde passar o Natal, porque acabam por ser obrigados a estar com quem têm relações difícil. Se a época gira em volta da partilha, da paz e da harmonia, “há uma maior reflexão sobre isto”. E aumenta a angústia de viver o oposto. Se é um dia para estar junto de quem se gosta, surgem as lembranças de quem está ausente, se é dia de harmonia, é mais difícil tolerar os conflitos, se há obrigação de ser feliz, suporta-se menos a dor. “Quando é bom, é bom, mas quando é mau é muito mau”, sintetiza Gabriela Moita.
No Natal, queremos paz e amor ou só presentes?
Ana Jeronimo
Crónica “Viagens na minha linha” de Dr. BakaliTítulo: “A História do Porco” in Blitz, Dezembro 2006
[«That ideas should freely spread from one another over the globe, for the moral and mutual instruction of man, and improvement of his condition, seems to have been peculiarly and benevolently designed by nature, when she made them, like fire, expansible over all space, without lessening their density at any point, and like the air in which we breath, move, and have our physical being, incapable of confinement or exclusive appropriation. Inventions then cannot, in nature, be a subject of property» John Perry Barlow
“A História do Porco
Para discutir o tema «A Economia da Propriedade Intelectual e os Novos Media» trouxe a universidade Lusófona a Lisboa alguns dos mais interessantes pensadores da questão na actualidade. A convite de António Machuco Rosa (de quem se aguarda para breve a publicação de livro sobre o assunto) estiveram, entre outros, André Bertrand – emérito professor de Manuel Lopes Rocha, também presente -, William Fischer, Michael A. Einhorm e, «last but not least», James Boyle (ficaram de fora Lessing e Barlow). Ora bem, de James Boyle sou fâ há muitos anos, desde Foucault in Cyberspace: Surveillance, Sovereignty, and Hard-Wired Censors, em que o autor levanta o véu sobre doius dogmas do início da internet: a incapacidade dos Estados controlarem as redes ou, nas célebres palavras de John Gilmore, »the Net interperts censorship as damage and routes aroud it»; e o carácter benigno e facilitador da tecnologia. Nesse texto, como noutros, Boyle recorre à desconstrução dos discursos a partir da sua própria retórica, slogans e demais «verdades». Uma das histórias com piada que conta, num dos artigos disponíveis mas não publicados, é a de certo conferencista que após uma sessão apologética do TCP/IP convictamente afirma: «e se já tivéssemos acesso a melhor tecnologia poderíamos encomendar uma pizza e tê-la entregue aqui mesmo nesta sala de aula». Alguns momentos de reverente silêncio após, ouve-se uma tímida voz que diz: «sabe, há um telefone no corredor». É o Teste do Telefone, nos termos do autor, que sugere que antes de qualquer mirabolante extrapolação sobre a tecnologia se deve substituir as palavras «net», «web» ou «e-mail» pela palavra «telefone» e verificar se a afirmação continua a ser correcta. Nem tudo o que luz é novo.
Mas voltemos ao tema da Propriedade Intelectual. Não há dúvidas sobre a importância maior das marcas e das suas instâncias no mundo actual: pense Disney, Beatles, Barbie, Pokemon. Em qualque área da hiper-dinâmica cultura do entretenimento, uma coisa é ter uma peça bem feita que até vendeu bem e outra é ter um nome, personagem ou universo que se expande globalmente e perdura.É pois natural que tanta riqueza provoque ganância (tanto dos legítimos proprietários como dos usurpadores) e cabe aos Estados fazer leis que protejam o direito de autor, o copyright, a propriedade intelectual enfim. Há um problema porém. Tal como na implacável relação inflação-desemprego da economia também na propriedade intelectual existe uma equação paradoxal: quanto mais se protege os direitos de autor, menor é a inovação. Quando não se protege a propriedade intelectual também não há inovação – a equação pede um equilíbrio que permita aos autores o devido benefício da sua obra (de forma a poderem continuar a criar) mas que, ao mesmo tempo, liberte esta última, ou certos elementos dela, para o domínio público.O exemplo perfeito do domínio público é a língua falada e escrita: não pertence a nenhum de nós, pertence-nos a todos, e com o seu uso comunicamos e criamos, escrevemos histórias, transmitimos conhecimentos, etc. Se a nossa língua-mãe fosse propriedade de alguém, o maior problema não adviria do termos de pagar royalties pelo seu uso (embora os pobres se remetessem ao voto de silêncio e todos falaríamos bastante menos) mas sim pelo facto de que um dia um Mia Couto, um Craveirinha ou um Jorge Amado serem impossíveis. Novas palavras e novas expressões dificilmente seriam criadas e acrescentadas. A dinâmica interna da língua tenderia a desaparecer.É isto que se passa, digamos, com a propriedade intelectual. E sendo certo que tal propriedade (neste mundo, tal como ele é) carece de um certo nível de protecção, exagerar as medidas proteccionistas tem um efeito nefasto na inovação. O argumento que Boyle trouxe a Lisboa é o de que nos últimos 100 anos sempre se escolheu a medida mais protectora. Para utilizar o exemplo dos EUA: na primeira lei de 1790, o autor perdia a propriedade ao fim de 10 anos (após a publicação da obra) mas podia requerer a sua revogação por igual período. Na lei de 1976 já se havia chegado ao cúmulo da (protecção da) propriedade ter sido estendida por toda a vida e mais 50 anos após a morte do autor. E em 1998, com o «Sonny Bono Copyright Term Extension Act», este período foi alargado para 70 anos após a morte do autor. No entanto, olhando para os números descobrimos que enquanto cabia aos autores solicitar a revogação dos seus direitos apenas 10% o fez. Os restantes 90% pouco se importaram, provavelmente satisfeitos com os benefícios obtidos e convencidos da importância de que outros pudessem partilhar da sua criação. Ora isto desmente a badalada necessidade de proteger cada vez mais os autores e também nos esclarece sobre este ponto: não são os autores mas as «disneys» deste mundo que se apropriam das ideias.”]
Através de um discurso, quase sempre, num tom sério, esta crónica aborda o tema pertinente e actual que é a questão da protecção da propriedade intelectual. Na primeira parte do texto existe um estilo mais descritivo-narrativo para dar lugar na segunda parte a um discurso mais reflexivo, argumentativo e coloquial que interpela o leitor. A linguagem é, no geral, simples. Aproxima e cativa o leitor utilizando a terceira pessoa do plural de modo inclusivo, como por exemplo, no último paragrafo.Considero apenas que as expressões em Inglês poderiam estar traduzidas. Se é dado adquirido que maior parte das pessoas compreende esta língua não nos podemos esquecer que nem todas as pessoas a dominam.
Maria João Ganhitas
“Sinto-me demasiado popular em Londres”
Pela primeira vez não vai à frente, mas não ficou mais humilde. “Não há dúvidas sobre a minha competência”. Terá a Inglaterra mudado alguma coisa em Mourinho ou foi só Mourinho que mudou a Inglaterra?
Foi ele que escolheu o campo. Em cima da hora, preferiu jogar em casa. Não a grande moradia fora da cidade que já mostrou aos portugueses nos ecrãs da SIC, mas a casa de Belgravia, bairro muito «posh» do coração de Londres, a pouca distância do rio Tamisa e do estádio do Chelsea. É num beco tranquilo que vive com Tami (Matilde) e os dois filhos, Tita (Matilde) e Zuca (José). Assim podem ir às compras e ao cinema a pé, ao contrário do que acontece em Cobham, onde preferem estar ao fim-de-semana. Dada a antecipação da entrevista (marcada para o dia seguinte), os jornalistas do Expresso acabaram por jantar na sala de José Mourinho. Carne estufada com cenoura e arroz, a que se seguiu um gelado de baunilha servido por uma simpática empregada brasileira. Na copa, o treinador do Chelsea assistia a uma transmissão da Sport TV em português. Depois, passou para o sofá.
Está em segundo lugar este ano, mas fala aos jornais como se fosse em primeiro. Não o assusta não ir à frente desta vez?
É uma experiência nova para mim. Nas outras duas épocas começámos à frente muito cedo. Já nas duas épocas anteriores, em Portugal, foi a mesma coisa. Eu sempre disse – e não mudo o discurso agora que sou o perseguidor – que é melhor ir à frente. Quem vai à frente só tem de pensar nele próprio. Quem vem atrás tem de ter alguma preocupação para que aquele que vá à frente tenha os seus percalços.
Como acha que vai reagir se perder o campeonato?
Anormalidade é eu ter ganho quatro campeonatos seguidos. Não é normal um clube fazê-lo, e muito menos um treinador. Se eu perder um campeonato, o quinto ou o sétimo, seja ele qual for, encaro-o com naturalidade. O que eu procuro fazer — para não me culpar a mim próprio quando isso acontecer — é tentar que os níveis de ambição não diminuam porque ganhei três ou quatro campeonatos. Gostava que acontecesse porque o adversário foi melhor, não porque não fui tão competente, tão determinado, tão líder como costumo ser. Mas estou tão convencido agora como estava há três ou quatro meses de que vamos ganhar o quinto campeonato.
O Chelsea tem mais adeptos hoje do que tinha há dois anos e meio, antes de ter chegado?
Tem.
(…)
Vê o futebol da mesma forma que via antes de vir para Londres?
Uma equipa campeã em Inglaterra não é campeã em Espanha, e o campeão em Espanha não o é em Inglaterra. São coisas completamente diferentes. Temos de ser flexíveis e nos adaptar às características do futebol onde estamos. E Inglaterra tem mudado. Houve grandes treinadores que chegaram, antes de mim, e eu também tenho alguma responsabilidade na mudança de qualidade do jogo. O futebol inglês deixou de ser tão directo e tradicional como era.
Mudou, portanto, depois da sua vinda.
Houve outros treinadores que já tinham tido uma influência positiva. Por exemplo, o Wenger. É óbvio que não somos os melhores amigos, mas respeito o trabalho que ele fez e tenho de reconhecer que é um grande treinador. Começou a fazer um bom trabalho mesmo antes de eu chegar.
(…)
Há dois anos disse em entrevista ao Expresso que se considerava a grande cabeça do futebol não só em Portugal como na Europa. Continua a achar-se o melhor dos treinadores?
São troféus. Ganhei os dois últimos anos mas estou convencido que este ano não voltarei a ganhar. Não é porque seja melhor ou pior do que era, mas o futebol é mesmo assim. Nos últimos anos não ganhei competições europeias. O troféu vai e vem. É como com os jogadores e a Bola de Ouro. Umas vezes vai para o Zidane, outras vezes vai para o Figo. Agora, é óbvio que estou num grupo de elite onde há seis, sete ou oito treinadores. Treinamos os melhores clubes, estamos nas melhores competições, conseguimos os melhores resultados, ano após ano.
Mas o que é o torna, a seu ver, o Special One?
Eu vim quase directamente do anonimato. Quando eu treinava o Leiria ou na minha primeira época no Porto, era praticamente um desconhecido. Passei do anonimato para esse grupo restrito de elite. O que é que nos leva para lá? Os títulos. O que é que nos mantém lá? Os títulos. Não há volta a dar: o futebol é ganhar. Special One? No futebol inglês isso faz sentido talvez pela ruptura com o tradicionalismo, por ser uma personalidade diferente, que arriscou muito na primeira época, na primeira abordagem. Nunca nenhum treinador tinha sido campeão ao chegar ao futebol inglês. Sempre foi considerado algo de muito especial, de difícil adaptação e domínio.
Não acha que tem arriscado demasiado às vezes? Houve aquela acusação ao treinador do Barcelona, Rijkaard, de que ele tinha ido ao balneário do árbitro…
Não arrisquei nada. Fiz aquilo que sempre faço, que é acreditar nos meus e naquilo que os meus me dizem de uma forma cega e objectiva. E se um adjunto me diz «foi assim, eu vi», não é nenhum Rijkaard deste mundo que me vai dizer o contrário. Simplesmente pus-me ao lado de um colaborador, como me porei sempre, sem olhar às consequências. Não é o exemplo perfeito.
Esse episódio abalou a sua imagem.
Um dos meus problemas é exactamente não me preocupar com a minha imagem. É uma das minhas características, que faz com que eu seja mais amado por uns e mais odiado por outros. É mais importante a minha equipa e os objectivos que perseguimos. São princípios dos quais não abdico.
Não se arrepende?
Não me arrependo. Exactamente porque o princípio é inerente à minha personalidade.
E nunca pediu desculpa?
Pedir desculpa por uma convicção ou uma característica de personalidade, não sou capaz de o fazer. Sempre considerei que houve uma desigualdade brutal (no caso Rijkaard) na forma como as coisas foram analisadas e conduzidas. Uns foram de imediato considerados os donos da verdade e os outros foram considerados os donos da mentira. E quando as coisas vão por esse caminho, não vale a pena haver mais discussão. É um episódio que faz parte do passado. Uma das vantagens de ter atingido um determinado estatuto é que podemos chegar a um momento e dizer: pensem o que pensarem de mim, a minha qualidade é evidente. Não há dúvidas sobre a minha competência. Estou-me nas tintas para o que pensam e para o que dizem.
(…)
Tornou-se amigo de Roman Abramovich ou mantêm uma relação meramente de patrão-funcionário?
A dimensão da palavra “amigo” é complexa. O que posso dizer é que gosto dele. Tenho uma relação que ultrapassa a ligação patrão/treinador. É uma relação aberta, frontal, muito objectiva e pragmática. Ele sabe o que é que eu quero, eu sei o que é que ele quer. Os meus problemas são os problemas dele, os meus objectivos são os objectivos dele.
Ele segue de perto a vida do clube?
Tem a sua vida, mas raramente perde um jogo. Quando as suas semanas permitem que esteja em Londres, também vai ao centro de estágio. Mas, ao contratar-me e ao contratar o Peter Kenyon e outros profissionais importantes, é exactamente com o objectivo de ter os melhores e delegar funções e responsabilidades e de não se preocupar muito.
(…)
O que é que o distingue do Pinto da Costa?
São completamente diferentes. A vida profissional do senhor Pinto da Costa, pelo menos no meu tempo, era o Futebol Clube do Porto. Vivia 24 horas para o clube. O Abramovich é uma pessoa com uma vida para além do futebol.
Prefere alguém como Abramovich, que mantém uma maior distância?
Nós temos é de nos adaptar em função daquilo que é a liderança do clube. Com o tipo de relacionamento que há com um presidente do dia-a-dia, não há necessidade de reuniões periódicas, organizadas, documentadas. Senti-me bem no Porto e sinto-me bem como funciono agora.
Costuma ler o que escrevem sobre si?
Não.
Ninguém lhe faz um resumo?
Há um assessor de imprensa no clube que está comigo todos os dias e que me faz um briefing. Não é um assessor pessoal que vem dizer: «Escreveram este artigo sobre ti». O que me preocupa são as notícias em redor da minha equipa, para eu poder liderar melhor.
(…)
Os fins justificam sempre os meios?
Não. Em absoluto. A maior prova disso é que na minha vida há prioridades. E as minhas prioridades não são o futebol. Há uma coisa que me irrita terminantemente: a calúnia. Por exemplo, em Portugal eu ia a Fátima muitas vezes. E comentava-se: lá vai ele a Fátima porque é antes de um grande jogo.
Isso é uma calúnia?
Então não é? Eu vou a Fátima pedir para ganhar um jogo? Eu ia e vou a Fátima porque gosto.
Fátima não merece essa desconsideração, é isso?
Para mim a única coisa que me preocupa no mundo, de facto, são os meus. Quero lá saber do futebol para alguma coisa. Agora eu ia a Fátima pedir para ganhar um jogo?… A minha vida não é o futebol.
Mas é católico.
Sou católico e sou crente.
Nunca pediu a Deus para ganhar um jogo?
Já pedi. Mas a minha prioridade de vida não é o futebol.
Mas dentro do futebol e voltando aos fins que justificam os meios: prefere perder um jogo justamente e ser correcto ou ganhar mesmo que tenha de torcer um pouco as coisas?
Sou um adepto da correcção. O que eu não gosto é de perder pela incorrecção. E também não gosto de ganhar por incorrecção. Se me disser: vais ganhar no último minuto com um golo marcado com a mão, eu não quero. Mas também não quero perder assim. Os fins não justificam os meios. Agora, enquanto líder de um grupo, vou dar-lhe um exemplo concreto: quando faço as minhas escolhas, faço-o a pensar na melhor maneira de atingir um resultado. Magoa-me, no final de uma época, dizer a um jogador «não te quero cá, vais-te embora». Mas tenho de o fazer. Pagam-me para isso.
E transmite essa emoção aos jogadores?
Depende do jogador.
Adapta-se aos temperamentos?
Sim, adapto-me. Sou totalmente contra o velho chavão do futebol de que todos devem ser tratados da mesma maneira. Não devem. Cada um deve ser tratado de uma maneira muito específica.
(…)
Neste momento é adversário directíssimo de Carlos Queiroz. Dão-se bem?
Damo-nos bem mas só falamos quando jogamos um contra o outro. Antes e depois do jogo, encontramo-nos.
(…)
Tem a sua equipa de sonho?
A equipa de sonho não existe. Há jogadores que jogam noutras equipas e que são intocáveis. Os grandes clubes não vendem os seus melhores jogadores. Mas tenho um plantel muito bom, com pequeninas lacunas, como todos têm. O grande segredo é fazer com que o todo seja melhor do que a soma das partes. Aí é quando a equipa está concluída.
Está contente com Hilário?
É uma situação muito específica: ser suplente do melhor guarda-redes do mundo. Se tudo corre bem e não há lesões, os guarda-redes suplentes são capazes de passar uma época inteira sem jogar. O que aconteceu com o nosso abriu as portas ao Hilário e eu não podia estar mais contente. Ele tem contrato por mais um ano e meio e penso que a tendência natural das coisas é renová-lo por mais tempo ainda.
Sente-se muito popular?
Sinto-me demasiado popular em Londres.
O jornal A Bola avaliou o número de vezes que tem saído na imprensa inglesa e concluiu que está tecnicamente empatado com Tony Blair. Tem ideia dessa dimensão?
Tenho ideia de que o que mais queria para a minha vida, quando eu saísse do meu trabalho e chegasse à rua, era ser uma pessoa igual às outras – e não sou.
(…)
Já conhece bem Londres?
Conheço. Moro no centro da cidade.
Faz vida de bairro?
Faço. A escola dos miúdos é aqui perto.
Consegue ir às compras?
Sim, sendo incomodado… É evidente que tentamos ter o nosso espaço. Temos um local fora de Londres onde vamos de fim-de-semana e onde estamos mais tranquilos. Mas não posso abdicar de ir ao cinema ou de ir buscar os meus filhos à escola e de vir a brincar com eles na rua, de trotinete ou de «skate».
Vai buscá-los a pé?
Quando o tempo o permite, vou.
E jantares românticos com a mulher?
Consigo tê-los, mas sou capaz de estar com o garfo na boca ou a meio de uma conversa importante que queremos ter a dois e de repente não é a dois — é a três. Alguém interrompe e pede para tirar uma fotografia, para o filho ou para o neto. A minha mulher, como educadora dos nossos filhos, tem um trabalho árduo, que é prepará-los para a vida que têm. A culpa é minha — devido à dimensão que eu atingi na minha profissão — mas é a vida que temos.
Os seus filhos estão a gostar do ambiente e da escola?
Eles gostam de Londres.
Já têm muitos amigos ingleses?
Sim. E já falam fluentemente inglês. Ela, além de falar, escreve. É completamente bilingue. Tem dez anos e está no quinto ano. Ele está na primeira classe.
A sua mulher deve estar feliz por lhes poder proporcionar uma educação melhor do que aquela poderiam ter em Portugal.
Não digo que a formação seja melhor. A minha mulher era uma apaixonada pelo plano de vida que nós tínhamos no Porto. Ela adorou viver lá. E os miúdos também. A escola onde eles andavam, o colégio Luso-inglês, era absolutamente fantástica. Serviu-lhes como uma base muito importante para virem para cá. A adaptação foi fácil, arranjar amigos também. Eles sentem-se bem. Estão felizes.
No início, quando veio para Londres, a sua vida social circulava muito à volta dos seus técnicos adjuntos portugueses.
Com os meus adjuntos estou cada vez menos. Eles moram todos praticamente juntos, longe de mim. Já têm as suas famílias. Estão muito mais independentes e perfeitamente adaptados. Estou contente com isso. Nós continuamos, obviamente, a ter a mesma boa relação que tínhamos com eles, mas vivemos cá do outro lado da cidade e os miúdos fazem amigos na escola e isso é muito importante. Amanhã à tarde tenho um jogo marcado — quatro contra quatro.
Que jogo é esse?
Eu fico numa baliza, o segurança dos meus filhos noutra baliza, e jogam o meu filho e mais cinco amigos que vêm da escola de propósito. Sexta-feira à tarde é o dia de jogarmos.
E jogam onde?
Aqui na rua.
Acha necessário os seus filhos andarem com segurança privada?
Achamos que sim. Fomos aconselhados a isso não só cá como também em Portugal. Não gostamos que seja uma coisa muito visível e palpável, mas dá-nos tranquilidade.
E eles sentem-se confortáveis?
Sim, porque não é uma coisa muito presente. Sabemos o que está a ser feito, mas não com muita proximidade.
(…)
Tem vizinhos famosos. Dá-se com eles?
Não me dou muito.
Eles não se metem consigo?
Não. Para mim há duas classes de famosos: os que são porque têm mérito e os que pagam para ser. Normalmente, os que têm mérito são uns gajos muito simples, com quem se pode jantar e conversar. Não têm vaidade absolutamente nenhuma. Estive várias vezes com o Brian Adams, que é uma superestrela, e parece que estava a jantar com um tipo qualquer. Encontro-me com o Robin Williams e com o pai dele no hotel em que fazemos estágios e estamos ali a conversar como se ele fosse um tipo absolutamente normal. Se transportarmos isso para o lado português acaba por ser a mesma coisa. No outro dia eu e a minha mulher estivemos a jantar com a Mariza, o Rui Veloso, o Carlos do Carmo, o João Gil. Não os conhecia, foi a primeira vez que estive com eles.
Convidaram-no para jantar?
Sim. São uns tipos porreiros e simpáticos. Ao fim de meia hora, dá para sentir uma empatia grande. Mas a vida, normalmente, afasta-me um bocado disso.
E não o desafiam para ir à televisão inglesa?
Não vou. Têm-me convidado, mas não vou.
Nem a debates vai?
Não quero ir. Nunca fui.
Os outros treinadores não vão?
Alguns vão, mas eu não quero. Aquilo que faço, faço porque tenho de fazer. Vou às conferências de imprensa com o Chelsea porque tenho de ir. Vou às acções de promoção de «sponsors» porque é obrigatório, faz parte da minha contribuição para com o clube. E sou patrono de uma associação de caridade aqui em Londres e vou a coisas que sinto o dever de ir. Eu e a mulher somos parecidos – se calhar por isso é que somos casados. A minha mulher é uma mulher de classe.
(…)
Tem saudades de viver em Portugal?
Não.
Gostou de ver a selecção no Mundial?
Diverti-me. Acho que chegar à meia-final de um Mundial é sempre um feito.
Scolari surpreendeu-o?
Não.
Acha que teria feito melhor no lugar dele?
Teria feito diferente. Cada treinador, cada cabeça. Se perguntar a todos os outros treinadores portugueses, vão dizer-lhe o mesmo.
Scolari teria dado um bom seleccionador de Inglaterra?
Na minha opinião, o futebol inglês merece um seleccionador inglês. Da mesma forma que o futebol português merece um seleccionador português. Acho que a selecção é representativa de um país e que deve ser feita com cidadãos desse país. O que não significa que não respeite profissionais e que eu próprio não vá ser um seleccionador estrangeiro.
Ainda tem quatro anos de contrato pela frente. Falou abertamente que gostava de vir a ser seleccionador nacional. É um projecto para essa altura?
Para mais tarde. Se me perguntasse qual é que seria o meu final perfeito enquanto treinador, era treinar a selecção portuguesa num Europeu e num Mundial.
(…)
Qual é, neste momento, o melhor treinador em Portugal?
Não sei. Acho que é uma injustiça estar a dizer nomes.
O Porto teve grandes mexidas depois da sua saída. O que acha do trabalho de Jesualdo Ferreira?
Se contarmos com o Rui Barros, Jesualdo é o sexto treinador desde que eu saí. O Porto parece ter encontrado agora um rumo. Para já, foi campeão no ano passado e o treinador fez um bom trabalho. A equipa tinha características muito específicas e aquilo que mais prazer deve dar a um treinador é dizer: «Eu ganhei com a minha marca, com a minha filosofia». O Co Adriaanse fez um excelente trabalho. Este Porto do Jesualdo Ferreira é diferente. Ele está a tentar incutir as suas ideias e parece-me uma equipa boa, com bons jogadores, bem trabalhada, com competência suficiente para voltar a ser campeão. E para fazer coisas boas nas competições europeias.
Tem acompanhado o processo do Apito Dourado?
Não consigo acompanhar um processo que dura 100 anos.
Há um fundo de verdade no Apito Dourado?
Eu acho que a história dos árbitros é uma história interminável e só a tecnologia poderá melhorar as coisas. Não entendo como numa indústria tão forte como é o futebol, a tecnologia na arbitragem não existe. Ela reduz os erros e ao reduzir os erros, reduz a crítica e a suspeição. E reduz a responsabilidade dos árbitros. Uma coisa é um fiscal de linha decidir um jogo por um fora de jogo mal assinalado, outra coisa é a tecnologia substituir o fiscal de linha numa decisão crucial. A tecnologia no futebol é o fim de todos os Apitos Dourados que possam existir.
(…)
É um homem rico.
O que é isso?
Não se considera rico?
Ganho muito dinheiro. Mais do que pensei que podia ganhar. Não tenho problemas financeiros, vivo como vivia há alguns anos. A minha vida não mudou.
(…)
Que carro é que tem?
Só tenho um carro meu, que comprei há uma data de anos e que não vendo, porque a minha filha adora-o, diz que quer ficar com ele quando fizer 18 anos. É um Volvo Cabrio antigo. Os outros carros são os que os patrocinadores me dão. Em Portugal tenho um Lexus, aqui tenho um Audi e agora vai haver qualquer coisa com a Porsche. Gosto de relógios. De vez em quando compro um relógio bocadinho melhor.
Faz colecção de relógios?
Não é propriamente uma colecção. Mas gosto. Quando compro um para mim, compro também um para a minha mulher, na perspectiva de, no futuro, um ser para a Tita e um para o Zuca.
Diz que gosta de viver sob pressão. Isso normalmente traz algum sofrimento. As pessoas sob pressão tendem a ser ansiosas.
Não sofro no futebol. É evidente que, quando a bola bate no poste e não entra, há alterações no batimento cardíaco que têm a ver com a própria natureza do jogo. Agora o sofrimento de desespero ou de ansiedade, não tenho.
Parece a quem está de fora que nunca está satisfeito com o que tem. Uma vitória é apenas um passo para a vitória que vem a seguir?
As vitórias acontecem num momento e fazem parte da história. E é o fim da nossa carreira ou a seguir há mais.
Tem medo de se sentir demasiado feliz?
Quero é mais. Uma coisa que chateia a minha mulher é eu acabar um jogo e ela pensar que por umas horas não há futebol, mas eu já estou a pensar no próximo.
Logo na hora?
Se chego a casa às seis da tarde, como faço depois de um jogo, brinco com os miúdos um bocado, vou jantar fora com a minha mulher e sou capaz de regressar a casa e ir preparar o treino para daí a dois dias ou formar a equipa que vai jogar.
Mesmo depois de uma vitória retumbante?
Sim, pode acontecer. Fiz um acordo com a minha mulher e consegui cumpri-lo: quando a época acaba, há um período em que eu trabalho, para depois haver um período em que ninguém me vai telefonar nem eu vou telefonar a ninguém. Porque, no fundo, o futebol é continuidade. Se calhar um dia vou pôr uma meia-dúzia de meses sabáticos.
Depois de 2010, imagino…
Sim. Vou fazer qualquer coisa que nunca me permiti fazer. Não sei o que são férias de Inverno, ir com os filhos para a neve. Não sei o que é passar um Natal e um fim de ano em família. Há coisas que eu e a minha família não sabemos o que é.
Quer dizer que não tem tido tempo para ser feliz?
Em qualquer família há momentos que são inesquecíveis também pela negativa. São coisas que deixam a sua marca de forma eterna. Podemos todos ter um Natal muito feliz, mas a minha família não se esquece que perdemos a minha irmã há meia dúzia de anos atrás e o sobrinho da minha mulher há meia dúzia de meses. Isso não nos permite a felicidade total. Mas consegui mais do que eu podia ter sonhado. Sou uma pessoa que se pode dizer feliz. Não é uma derrota ou um campeonato perdido que vai fazer com que eu deixe de ser um homem feliz.
Vai passar o Natal em Londres?
Pela primeira vez desde que estou cá, vou passá-lo a Portugal. A minha família vai mais cedo e vem mais tarde. Eu vou a 23 e venho a 25. Tenho jogos.
Por Micael Pereira
Disponível aqui: http://expresso.clix.pt/Dossies/Interior.aspx?content_id=374118&name=Entrevista%20integral%20de%20Jos%C3%A9%20Mourinho%20ao%20EXPRESSO
Uma entrevista interessante e que nos traz novas informações sobre a vida de Mourinho, sobre a qual tanto se escreve. As perguntas têm como objectivo a descoberta de novas informações sobre o tão aclamado treinador português. É importante ressalvar o a citação escolhida para título “Sinto-me demasiado popular em Londres”, sem dúvida surpreendente e inesperada, tento em conta aquilo que Mourinho deixa transparecer como pessoa para o mundo do futebol.
Infantis e Tv a mais
Tv e Infantilidade a menos
“Crianças identificam-se com os super-heróis”chega a propósito das crianças que têm sempre propósito, do natal e da televisão que faz os nossos e os seus próprios propósitos.Por que Bom Jornalismo é aquele que mais do que escrever, relatar, bem, é aquele que procura, detecta, questiona e aponta bem, certeiramente o que está bem…ou, e sobretudo o que está mal.E a nossa televisão para as nossas crianças…está bem assim? Ou vai estando…é que enquanto nós por cá vamos indo…as nossas crianças vão crescendo e se formando com a televisão que temos.
E na tradicional batalha pela junção do informar e formar junta-se o entreter os espectadores neste caso crianças que brincam cada vez menos na rua e sentam-se cada vez mais em casa em frente ao televisor, será que os pais estão atentos e conhecem bem o amigo que brinca horas seguidas com o seu filho?
Dn.pt 17.12 .06
Entreter é a palavra de ordem na hora de ver desenhos animados. A acção adquire outra força quando as crianças entram em período de férias, como o do Natal, a partir de amanhã.Para a psicóloga Teresa Andrade, faz parte do desenvolvimento das crianças, aguça-lhes os sentidos. “Os mais novos reagem às cores fortes, à música, aos estímulos tridimensionais que os ensinam a relacionar-se com o mundo”, explica ao DN a especialista, que vê no Noddy o exemplo mais bem conseguido. “Tem bons psicólogos por detrás, é um fenómeno.”Mas nem tudo o que os miúdos vêem tem a inocência de Noddy ou voluntarismo de Ruca. Os mais velhos procuram “diversão e modelos de interpretação da realidade”. E aqui reside o perigo: “As crianças vêem TV em excesso, os pais acompanham-nas pouco, elas absorvem tudo de igual modo, sem perceber as diferenças.” E se o Panda anuncia as séries, o Cartoon Network, “a que assistem por curiosidade, por ser fruto proibido”, já não faz isso. “E tem desenhos muito violentos, como o Stupid Dog ou o Cow & Chichen“, alerta. “É preciso ter cuidado.”
Ciente dos excessos, também Rui Cádima, docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, defende a necessidade de investir os pais de um papel primordial no acompanhamento dos filhos enquanto espectadores.
Os tempos televisivos aceleraram nos últimos anos, a percepção e as imagens tornaram-se vertiginosas. Porém, “o que as crianças de hoje procuram é o mesmo que procuravam as crianças e jovens de antigamente, os valores são os mesmos”, defende José Navarro de Andrade, coordenador da SIC Kids – o espaço que engloba todos os conteúdos infanto-juvenis da estação de Carnaxide. E, concretiza: “Continua-se a querer heróis que sirvam de modelo, o bem definido e a ganhar ao mal, actos positivos que divirtam e, ao mesmo tempo, sirvam de referência na vida real.”
Atentas, as grelhas dos vários canais procuram responder à exigência dos públicos a que se destinam, do pré–escolar à adolescência. Diferentes nas suas especificidades e nos programas que seleccionam, acabam, todavia, por cruzar valores e estratégias de acção, temas, comportamentos e até mesmo séries e personagens.
“O facto de sermos uma estação de serviço público leva-nos a ter que dar especial atenção aos públicos jovens – a lei refere especificamente programas vocacionados para a formação, informação e bem-estar, que defendam a liberdade, a solidariedade e a compreensão. Mas tudo isso acaba por ir ao encontro do que as crianças procuram”, sustenta Teresa Paixão, responsável pelo departamento de programas infanto-juvenis da RTP, nomeadamente o espaço Zig Zag (na 2.
A coordenadora reconhece a necessidade de “uma maior dedicação aos conteúdos pré-escolares, dado que os canais privados contemplam menos esta faixa etária”. Ainda assim, diz, nada disso é impedimento. “As crianças procuram mais ou menos todas o mesmo, hoje como no passado. Faz parte do crescimento.” Até aos quatro anos buscam a tranquilidade, a beleza, o colorido, “querem figuras e ambientes amorosos, calmos, musicais”. Depois surge a procura da aventura, de uma certa irreverência, do humor.
“É natural que haja coisas que passem de moda, séries que caiam para dar lugar a outras. Mas haverá sempre uma identificação com os super-heróis”, garante Teresa Paixão, ciente de que o seu papel na estação pública passa, em parte, por saber escolher “aqueles que dão a vida e não os que a tiram”. José Navarro de Andrade concorda: “Os valores da animação mantêm-se, o que eu via com sete anos é o que a minha filha quer ver hoje.”
E se o SIC Kids aposta “nitidamente em crianças mais velhas” do que aquelas que vêem Noddy, Bob, o Construtor ou Teletubbies, a verdade é que “tem de ter sempre em conta as diferenças de públicos para lhes dar resposta”. É essa a tendência.
Segmentar para vencer
Os canais infanto-juvenis em geral, incluindo o Panda, Disney Channel, Nickelodeon e Cartoon Network, seguem uma lógica da segmentação. “A malha de penetração dos programas é mais fina, pensada em termos do género e faixa etária a que se destina”, refere Navarro de Andrade, vendo nisso um sinal “da tal aceleração” da actualidade.
“As nuances são diferentes, a sociedade muda, mas as séries acompanham-nas”, resume Teresa Paixão. E apesar de as crianças serem “muito mais maduras agora”, conforme acredita a directora do Canal Panda, Isabel Mimoso, “na hora de definir a programação o que mais conta para nós são os valores positivos como a família, a amizade, a imaginação e o de-senvolvimento social e intelectual”, assegura. Incontornáveis são também os princípios que regem os conteúdos do Nickelodeon. “Bonecos como o Spongebob, líder do canal, o Avatar, o Danny Phantom, a deslizar como um fantasma, ou o Jimmy Neutron, no seu foguetão de protões ionizados, são todos irreverentes, não violentos e inteligentes”, frisa o responsável pela programação do canal, José Pedro Carvalho. Apostando nos clássicos da Disney que encantam gerações (Dumbo ou Bambi), em filmes como As Crónicas de Narnia ou Mary Poppins e em programas de criatividade, também o Disney Channel (canal codificado do cabo) faz a apologia da alegria, da família e da magia.
“A variedade da oferta de entretenimento infantil tem crescido muito. E as crianças só têm a ganhar com a diversidade dos vários canais, visto que podem optar e compor elas mesmas a sua grelha de programação”, reitera José Pedro Carvalho, dando voz aos outros coordenadores (público e privados). “Acho que realmente existe uma complementaridade entre os canais infantis”, apoia Isabel Mimoso, reconhecendo o público jovem como o mais difícil, por ser “curioso e ávido” de novidades. E, no fundo, “cada canal encontra o seu espaço.”
Dn.pt http://dn.sapo.pt/2006/12/17/tema/criancas_identificamse_os_superheroi.html
Bom exemplo pelo tema, questões que coloca, lados que ouve, citações escolhidas, organização de ideias.
Ana Jerónimo
A revista Única de 16 de Dezembro de 2006 apresenta uma entrevista a Eduardo Gageiro, fotojornalista português, a propósito da publicação do seu mais recente livro «Fé, Olhares sobre o Sagrado», que reúne fotografias tiradas ao longo da sua carreira. A entrevista, conduzida por Ana Soromenho e Luiz Carvalho, e o Portfolio do autor constituem um todo muito interessante porque, “olharmos” para o percurso deste fotojornalista é olharmos também para o percurso do fotojornalismo e do próprio país.
Reproduzo o ante-título, título, entrada da entrevista e alguns excertos da mesma. Considero a entrada para a entrevista particularmente interessante, uma vez que dá uma visão geral do trabalho de Gageiro, centrando-se em momentos históricos marcantes. Apenas considero menos feliz a comparação “Se Gageiro cantasse, seria Amália”, mas passa desapercebido no meio da informação de qualidade que a entrevista oferece.
“Registou os anos de Salazar e estava na frente do 25 de Abril. Eduardo Gageiro, decano dos fotojornalistas portugueses, 71 anos, edita agora «Fé, Olhares sobre o Sagrado», uma obra com mais de 200 fotos que fez pelo Mundo.”
“com uma máquina fotográfica à frente
nunca senti medo”
Eduardo Gageiro
“Partiu a loiça quando o pai o quis obrigar a ser um manga-de-alpaca na Fábrica de Loiça de Sacavém. Corriam os anos cinquenta a preto e branco do salazarismo. Amealhou para uma Rolleicord e com ela fotografou os rostos do neo-realismo português.
Em 1956 já estava nos jornais e desde então fixou imagens emblemáticas da «aventura» portuguesa. Os tristes adeus dos embarques para as colónias, os peregrinos de Fátima, as tragédias do Vulcão dos Capelinhos ou as cheias de 1967, o transe dos fiéis da Santa da Ladeira, as lágrimas dos medalhados do Dia da Raça, as mulheres da Nazaré arrastando consigo a força do mar, o último beijo de Maria a Salazar, mas também a Festa Patiño, as primeiras misses portuguesas, a glória de Eusébio, Amália. Se Gageiro cantasse, seria Amália.
Volvidos anos de caminho entre gentes, Gageiro mostra agora aquele que é um dos fios condutores na sua obra: o rosário visual das religiões. O livro aí está e com ele esta entrevista de vida.
[…]
Quando começou a fotografar, em 1956, quem eram os fotógrafos que o inspiravam?
Sobretudo os da “Life”. Naquela época, praticamente não havia revistas.
Sempre fui autodidacta. Na verdade comecei a fotografar aos 12 anos, quando um tio meu ofereceu ao meu irmão Armando uma Kodak «baby» de plástico. Aquilo era um brinquedo fantástico. Ia passar férias para casa de uma tia, para os lados de Arruda dos Vinhos – havia lá um sítio de que gostava muito, chamava-se o Moinho do Céu – e fazia umas fotografias muito bucólicas. A primeira foi um pastor e um moleiro. Na altura, o «Diário de Notícias» publicava na primeira página as fotografias dos leitores. Mandei e publicaram-me duas.
São dessa época algumas das fotografias da Fábrica de Loiça de Sacavém?
Fui para a Fábrica de Loiça com 13 anos. Quando acabei a quarta classe (actual quarto ano), o meu pai mandou-me para a fábrica, para ser empregado de escritório. Ele achava que ser manga-de-alpaca era uma grande promoção social.
[…]
Esse tempo da sua infância faz lembrar o Portugal de Soeiro Pereira Gomes.
E era mesmo assim. Sacavém era uma vila operária e a vida era como nos livros dos neo-realistas.
[…]
De onde lhe vinha essa ideia fixa de ser fotógrafo?
Nem eu sei. Retratar as pessoas era muito gratificante. Talvez aquela ideia de fazer documentos e eternizar o momento. Eu fazia fotografia sem qualquer conhecimento estético. Na fábrica gostava muito de estar com os escultores e os pintores e foram eles que me ensinaram a fazer enquadramentos e coisas assim. Nessa altura também comecei a fotografar com máquinas melhores.
[…]
Quando começou a publicar?
A partir de certa altura mandava fotografias para todos os concursos e comecei a receber prémios. O meu pai detestava. Considerava que ser fotógrafo era extremamente pejorativo. Nessa época comecei a fazer parte do grupo cultural O Sacavenense, onde aparecia gente já formada e universitários. Eu era o menos culto, mas eles incentivavam-me imenso porque era muito curioso e muito interessado em aprender. Começaram a dar-me livros para ler, organizávamos eventos culturais giríssimos, lembro-me de termos lá levado o coro do Fernando Lopes Graça. Era tudo malta de esquerda, embora não se discutisse política desse modo. Só mais tarde, eu e o Mário Ventura, que morava ao meu lado, começamos a publicar juntos numas revistas e às tantas ele conseguiu entrar para o «Diário Popular». O pai dele era um homem muito sociável, organizava uns jantares e convidava muitos jornalistas. Num desses jantares conheci o Jorge Tavares Rodrigues, director do «Diário Popular», que me disse para aparecer no «Diário Ilustrado». Fiquei entusiasmadíssimo e lá fui. Quando comecei a trabalhar, fugi imediatamente da fábrica e refugiei-me em casa da minha tia porque o meu pai andava atrás de mim para me bater.
Quantos anos tinha?
Mais de 18. Cheguei ao «Diário Ilustrado» para ser fotógrafo e puseram-me no laboratório a revelar rolos. Na altura os jornais eram dominados pela máfia da fotografia que fazia inaugurações, conferências de imprensa e pouco mais. Eram dois ou três em cada jornal e trocavam fotografias entre eles. «Ó Fernando, foste fazer aquela conferência do Tenreiro [almirante e presidente do Grémio do Bacalhau]? Olha, eu fui fazer aquilo e tu não estavas lá. Então vou mandar-te um boneco e tu mandas-me aquela…» Era assim. Nem o chefe de redacção tinha poder sobre os fotógrafos. Estavam acima de tudo.
Como é que conseguiu furar o esquema e começar a fotografar?
Um dia era preciso um fotógrafo para ir a uma entrevista ao Mário Dionísio e não estava lá mais ninguém, só eu. Aproveitei a oportunidade e fiz umas fotos com o «flash». Mas não disparava o «flash» de qualquer maneira. Punha-o na lateral, o que dava uma luz completamente diferente. Parecia estúdio. No fim perguntei ao Mário Dionísio se não se importava de ser fotografado de pé na biblioteca. Ele fumava cachimbo e fiz aquelas coisas com o fumo, um bocado óbvias, mas completamente diferente do que se fazia. Naquela época, nos jornais, era meia bola e força. Eu dava-me muito com os redactores, que começaram a exigir que fosse que a fazer determinados serviços. Mas quem marcava a agenda eram os fotógrafos – e eles marcavam-me os piores serviços. Foi uma luta tenaz até conseguir ter alguma aceitação do meio. Diziam: «Este gajo só faz fotografias de meninos ranhosos e velhos desdentados.» Por acaso não tenho nada no género.
Mas durante os anos sessenta estava n’«O século Ilustrado». Os seus melhores trabalhos foram publicados nesse período…
Isso foi depois de ter ficado desempregado, quando o «Diário Ilustrado» acabou. Foi um tempo terrível. Passados seis meses recebi uma carta do presidente do Sindicato dos Jornalistas a pedir-me para devolver a carteira profissional. Percebi que era uma persona non grata. Fazia fotografias que eram incómodas. Não tinham mal nenhum, mas achavam que eu dava má imagem de Portugal. Eu limitava-me a fotografar o que sentia. Fui até preso por causa de uma fotografia que fiz na Nazaré.
[…]
Quanto tempo esteve preso?
Uns dias. O suficiente para ficar assustado. Isto passou-se no tempo de Rui Patrício [ministro dos Negócios Estrangeiros], que tentava dar uma imagem mais arejada de Portugal e fazia um almoço mensal com a imprensa estrangeira. Num desses almoços, o jornalista da AP [Associated Press] perguntou porque é que eu estava preso. Devem ter-se sentido pressionados e foram buscar-me a Caxias para ser interrogado. Diziam que eu dava uma imagem negativa do país: «Portugal tem paisagens tão bonitas…Por que não tira outro tipo de fotografias?» – era essa a conversa deles. Mas durante dois anos fiquei completamente atordoado e não mandava fotografias para lado nenhum.
[…]
Quando fotografou o enterro de Salazar tinha a consciência de que estava a fotografar um grande momento histórico? Como foi fazer aquela fotografia da Dona Maria a despedir-se do Presidente do Conselho (de quem era governanta) dentro do caixão?
Fui o único que estive lá até ao fim. Calculei que iriam fechar o caixão e que a Maria poderia querer despedir-se. Pensei: «Se calhar é hoje. Vou aguentar». Fiquei ali à espera. Fui comer uma sandes – adoro comer – e no momento antes de fecharem o caixão, em público e pela primeira vez, a Maria dá um beijo ao Salazar. Fiz aquela sequência fantástica. Não saiu. A Censura não deixou.
[…]
Testemunhou momentos históricos do século XX. Qual destacaria como o mais importante na sua carreira?
O 25 de Abril. Sem dúvida. Quando um fotógrafo tem a Censura e não pode fazer as fotografias que quer, qual é a sua ambição?
[…]
É o único fotógrafo-comendador em Portugal…
Acho que sim. Mas não tenho cara de comendador!
[…]
Finalmente vai ter uma máquina digital. Vai mesmo usá-la?
Não sei. Só o gozo que me dá estar no laboratório a meter as mãos nos líquidos, a queimar de um lado e do outro. O digital…Não se esqueçam que eu saí de casa para não ser empregado de escritório. Vou agora outra vez carregar nas teclas? Odeio teclas.”
Neste link encontram-se algumas fotografias que integram o livro «Fé, Olhares sobre o Sagrado.»
http://expresso.clix.pt/Multimedia/Interior.aspx?content_id=373976
O “Em Reportagem” (RTP) desta quarta-feira, 13 de Dezembro, dedicou-se à comparação entre as sociedades portuguesa e finlandesa. Tendo como base a experiência de uma finlandesa a viver em Portugal e de um português a residir na Finlândia, a reportagem “Nós e a Finlândia” traça paralelos entre ambos os países nas mais variadas áreas: transportes, ordenado mínimo, entrada na União Europeia, taxa de inflação, valores/cultura, ensino, sistema de saúde, entre outros.
Além da criatividade na apresentação dos gráficos, da forma sucinta e clara das comparações, há pormenores que, na minha opinião, marcam positivamente a reportagem: o uso de um sofá vermelho, no qual se sentam a finlandesa e o português em Portugal e na Finlândia, respectivamente, funciona como elemento de ligação entre ambos, assim como a língua que utilizam para se expressar, o português. Por fim, o facto de serem entrevistados em locais paradigmáticos das capitais dos dois países (Catedral de Helsínquia e Torre de Belém, por exemplo) e de nos ser apresentado um dia na vida de cada transporta-nos para os locais e realidades tão distintos das sociedades nórdica e portuguesa.